Influenciadora, empreendedora e formada em Design de Interiores, Andreia Moutinho transformou a paixão por criar e recuperar espaços num novo projeto familiar. O Monte da Borrega nasceu na Serra de São Mamede como um refúgio onde o luxo se mede em silêncio, tempo e espaço para abrandar.
Muito antes de “criadora de conteúdos” ser uma profissão, Andreia Moutinho já utilizava o digital para comunicar aquilo que criava. A Lovely Breeze nasceu ainda nos tempos da faculdade, evoluiu de projeto online para marca e, mais tarde, para a Lovely Concept Store, em Lisboa. Pelo caminho, a formação em Design de Interiores continuou a acompanhar-lhe o percurso, da remodelação da própria casa à recuperação de espaços comerciais e, agora, a um projeto de turismo rural.
O Monte da Borrega fica na Serra de São Mamede e recupera a linguagem tradicional dos montes alentejanos através de um olhar contemporâneo. Paredes caiadas, pedra, madeira, ferro e cal convivem com apontamentos de design atual, mantendo elementos da casa original, como uma antiga manjedoura transformada em lavatório, torneiras de latão e portadas centenárias. No exterior, duas parreiras centenárias cobrem as pérgolas, uma mesa corrida convida a refeições sem pressa e a piscina abre-se para quase um hectare de natureza. À noite, a reduzida poluição luminosa deixa o céu assumir o protagonismo. Tudo foi pensado para criar precisamente aquilo que tantas vezes falta no quotidiano: tempo.
Conversámos com Andreia Moutinho sobre o acaso que levou a família até ao Alentejo, os desafios de recuperar uma casa sem lhe apagar a história, a evolução da sua vida no digital e aquilo que este novo projeto lhe ensinou sobre a arte de desacelerar.
O Monte da Borrega nasce de um projeto familiar no coração do Alentejo. Como surgiu a ideia e porquê a Serra de São Mamede como o sítio certo para este refúgio?
A verdade é que foi uma daquelas coincidências felizes da vida. Sempre tivemos o sonho de, um dia, recuperar uma casa no meio da natureza, mas não havia uma zona definida nem um plano concreto. Foi o Bruno quem encontrou esta casa numa plataforma online. Decidimos ir vê-la apenas por curiosidade e aproveitámos para passar o dia a conhecer a região. Não tínhamos qualquer ligação à Serra de São Mamede, nem raízes na zona. Mas, assim que chegámos, percebemos que havia ali qualquer coisa especial. A paisagem, a tranquilidade, a autenticidade do lugar… foi impossível ficar indiferente. Acabámos por nos apaixonar não só pela casa, mas por tudo o que a rodeava. E foi aí que percebemos que aquele podia ser o sítio certo para dar vida ao projeto com que sonhávamos há tantos anos.
Da manjedoura transformada em lavatório às portadas centenárias, a casa cruza memória com um olhar contemporâneo. Qual foi o maior desafio em equilibrar a autenticidade da arquitetura alentejana com a tua visão de design?
Desde o primeiro dia tivemos uma ideia muito clara: queríamos respeitar a sua história. A inspiração veio muito das raízes alentejanas da família do Bruno. O nosso objetivo foi preservar ao máximo a identidade da casa, recuperando elementos originais sempre que possível e dando-lhes uma nova vida, sem lhes retirar a alma. Claro que fomos acrescentando detalhes que refletem o gosto da família e a nossa forma de viver os espaços, mas sempre com muito cuidado para que o contemporâneo não apagasse a autenticidade. No fundo, quisemos que quem entra na casa sinta que ela continua a ser genuinamente alentejana, apenas preparada para ser vivida hoje.
Entre a Lovely Breeze, a Lovely Concept Store, o teu trabalho de consultora imobiliária, a criação de conteúdos e agora o Monte da Borrega, como consegues gerir tantos projetos em simultâneo sem perder a identidade em cada um deles?
Na verdade, esta pergunta costuma ser feita ao contrário daquilo que realmente aconteceu. A Lovely Breeze nasceu ainda na faculdade, como um projeto entre amigas que mais tarde se tornou um projeto pessoal. Muito antes de existir a profissão de influencer, eu já criava conteúdo para comunicar a minha própria marca. Foi assim que comecei a partilhar um pouco do meu dia a dia, do design, da decoração e daquilo que me inspirava.
A minha formação é em Design de Interiores e isso explica muito do meu percurso. Sempre tive uma enorme paixão por remodelação, decoração e design de produto. Primeiro remodelámos a nossa casa e, mais tarde, surgiu o sonho de recuperar um espaço de raiz. Foi nessa altura que apareceu o Monte da Borrega, um projeto familiar, construído em conjunto com a família do Bruno. Entretanto, a Lovely Breeze deu origem à Lovely Concept Store, uma loja física em Lisboa com outras marcas portuguesas. Ao longo dos anos fomos construindo uma equipa extraordinária, que hoje é muito mais do que uma equipa: é o meu braço direito. Foi graças a essas pessoas que consegui continuar a sonhar e abraçar novos desafios.
O imobiliário surgiu precisamente dessa paixão pelos espaços. Não vejo apenas uma casa; gosto de imaginar aquilo que ela pode vir a ser. Adoro ajudar as pessoas a encontrar o lugar certo para viver, vender uma casa importante nas suas vidas ou perceber o potencial de um imóvel antigo e transformá-lo num verdadeiro lar.
Hoje olho para tudo isto como um percurso natural. Tenho 36 anos e cada projeto apareceu na altura certa. Nunca senti que tivesse de escolher apenas um caminho. Fui simplesmente agarrando as oportunidades que faziam sentido para mim, sempre rodeada das pessoas certas, que acreditaram tanto quanto eu. Acho que é isso que faz com que todos os projetos tenham a mesma identidade: no fundo, todos nascem da mesma paixão por criar, transformar e construir.
O digital mudou muito nos últimos anos. Como sentes que a tua forma de comunicar e criar conteúdo evoluiu ao longo do teu percurso online?
Mudou completamente. Quando comecei, não existiam regras nem fórmulas. Partilhava porque gostava e porque queria mostrar aquilo que estava a criar. Hoje existe muito mais estratégia, mais plataformas e muito mais pressão para acompanhar tendências. Mas, curiosamente, aquilo que sinto que nunca perdeu valor foi a autenticidade. Com o tempo percebi que as pessoas não procuram conteúdos perfeitos; procuram pessoas reais. Hoje comunico de forma muito mais consciente, mas também muito mais próxima. Partilho conquistas, desafios, dúvidas, bastidores e tudo aquilo que faz parte da minha vida. Acho que foi essa evolução que me permitiu continuar ligada a uma comunidade que cresceu comigo ao longo destes anos.
O Monte da Borrega foi pensado como um espaço para abrandar. Depois de anos a viver ligada ao digital e a vários projetos em simultâneo, o que é que este refúgio te ensinou sobre desacelerar tu própria?
Ainda estou a aprender. Sempre fui uma pessoa muito criativa e apaixonada por criar coisas novas. Gosto de estar ocupada, de sonhar e de transformar ideias em realidade. Por isso, desacelerar nunca foi algo natural para mim. Mas o Monte da Borrega obriga-nos a isso. Ali o tempo passa de forma diferente. Não existem notificações que sejam mais importantes do que um pôr do sol, um pequeno-almoço sem pressa ou uma conversa à volta da mesa. Acima de tudo, ensinou-me que parar não significa deixar de crescer. Pelo contrário. Muitas vezes é precisamente quando abrandamos que surgem as melhores ideias e conseguimos voltar aos nossos projetos com uma energia completamente diferente. É isso que gostávamos que as pessoas sentissem quando nos visitam: que, mesmo por apenas dois ou três dias, consigam desligar do ritmo acelerado da vida e voltar a encontrar tempo para aquilo que realmente importa.
No Monte da Borrega, essa vontade materializa-se numa casa onde a paisagem é deliberadamente deixada em primeiro plano e onde a simplicidade faz parte da experiência. Um projeto que cruza vários dos mundos de Andreia Moutinho – design, recuperação de espaços, criação e hospitalidade – mas que nasce, curiosamente, de uma vontade muito mais simples: parar um pouco.



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