O nosso corpo mede o tempo através dos anos, o cérebro pelas experiências vividas e a alma na capacidade de continuar a sonhar.
Todos os anos celebra-se o Dia Internacional da Juventude. Pensamos nos adolescentes, nos jovens adultos, no início da vida. Mas talvez devêssemos fazer uma pergunta diferente, o que significa ser jovem? A resposta não está no cartão de cidadão. A ciência tem vindo a ensinar que podemos envelhecer biológicamente sem envelhecermos psicologicamente. Podemos por isso, ter cabelos brancos e um cérebro curioso, por exemplo. Podemos ter mais uma ruga no rosto, sem deixar que elas apareçam na forma como olhamos para o mundo e a vida.
Durante décadas acreditou-se que, depois de determinada idade, o cérebro iniciava um caminho inevitável de declínio. Hoje sabemos que essa ideia está incompleta. A Neuropsicologia mostra-nos que o cérebro humano conserva, ao longo de praticamente toda a vida, uma capacidade para criar novas ligações neuronais, reorganizar circuitos e aprender. Chamamos a isso: neuroplasticidade.
Cada livro lido, cada idioma aprendido, cada conversa profunda, cada viagem, cada desafio enfrentado, cada emoção deixa uma marca no nosso cérebro. Aprender transforma mesmo, aquilo que somos. Enquanto psicóloga, aprendi que aquilo que mais envelhece uma pessoa não é o passar dos anos. É deixar de sentir curiosidade, é acreditar que já se viu tudo, que já não vale a pena mudar nada e que já não existe espaço para crescer.
É aqui que a Psicologia e a Psiquiatria se cruzam:). Sabemos hoje que a saúde mental influencia a forma como envelhecemos. A depressão, o isolamento, a ansiedade crónica, a ausência de propósito ou a solidão prolongada aceleram o envelhecimento cerebral e físico. Pelo contrário, manter relações emocionalmente seguras, sentir que pertencemos a algum lugar, ter objetivos, cultivar esperança e encontrar significado protege o cérebro.
Não é por acaso que são vários os indivíduos com 80 e 90 anos cognitivamente ativos, emocionalmente disponíveis e apaixonados, pela vida. Não descobriram a fonte da juventude. Descobriram algo mais importante: nunca deixaram de viver (por dentro).
O envelhecimento ativo começa muito antes da reforma. Começa quando escolhemos caminhar em vez de desistir do movimento. Quando dormimos o suficiente para permitir que o cérebro consolide memórias e elimine substâncias potencialmente tóxicas. Quando alimentamos o corpo, com qualidade. Quando fazemos exercício físico, sabendo que este estimula a produção de fatores que influenciam, o crescimento dos neurónios. Quando treinamos a memória, a atenção e o raciocínio. Quando aprendemos uma nova competência aos 40, 60 ou 80 anos, sem receio de “parecer mal”! ;)!
Mas há algo que nenhum exercício substitui. A capacidade de sentirmos emoções! Continuar a rir muito (genuinamente), chorar (quando é preciso, apaixonarmo-nos ( por pessoas, ideias, novos projetos). Ter coragem para mudar de opinião. Pedir desculpa. Perdoar. Recomeçar. Tudo! Em modo presente e no presente!
A juventude é a presença na vida. Num tempo em que a sociedade parece procurar incessantemente fórmulas para atrasar o envelhecimento da pele, talvez devêssemos investir mais naquilo que realmente prolonga a juventude: cuidar da saúde mental, proteger o cérebro, cultivar relações significativas, manter a curiosidade e nunca abandonar a capacidade de sonhar.
No Dia Internacional da Juventude, podemos celebrar os jovens mas não nos vamos esquecer de todos aqueles que, independentemente da idade, continuam a acreditar que ainda há páginas por escrever. Porque, no fim, não é o tempo que determina quem somos mas a forma como escolhemos viver cada dia que a vida nos oferece 🙂
Artigo por Dra. Luísa Leal, psicóloga e neuropsicóloga @psicologaclinicaluisaleal
Centro Clínico Dra Luísa Leal Saúde Mental e bem-estar