Manual de boas maneiras para um funeral

Sabemos qual o talher certo para cada prato num jantar formal, mas colocamos alguém diante de um caixão e a incerteza instala-se de imediato. Onde nos sentamos, o que dizemos à família, o que fazer com o telemóvel que continua no bolso a vibrar. Ninguém nos ensinou nada disto.

E, no entanto, existe etiqueta para tudo isto. Só que, por ser um tema que raramente se discute à mesa de jantar, acaba toda a gente a improvisar, muitas vezes mal, precisamente no momento em que uma família de luto menos precisa de gente a fazer figuras tristes por desconhecimento.

A primeira regra é a mais óbvia e a mais desrespeitada: a pontualidade. Chegar atrasado a um funeral não é só falta de educação, é uma perturbação real de uma cerimónia que já está a decorrer. Entradas sequenciais, com a porta a abrir e a fechar várias vezes, são profundamente desrespeitosas para a família do falecido.

Depois há o telemóvel, esse companheiro que devia ficar em modo de avião e fora de vista. Se surgir mesmo uma chamada urgente, pede-se licença e sai-se discretamente, nunca se atende no local, nem sequer a sussurrar.

A roupa segue a lógica que todos intuímos mas nem sempre cumprimos: tons escuros, discretos, sem estampados chamativos. Preto continua a ser a escolha mais segura, mas azul-marinho, cinzento-escuro ou castanho-escuro funcionam igualmente bem. A ideia não é vestir luto no sentido antigo da palavra, é simplesmente não destacar-se numa sala onde o protagonismo pertence a outra pessoa.

As flores são talvez o ponto onde mais gente hesita. O ideal é perguntar antes à família se são bem-vindas, porque cada vez mais se opta por donativos a instituições de solidariedade em vez de coroas. Quando se escolhe mesmo enviar flores, o melhor é fazê-lo diretamente para a agência funerária antes da cerimónia, acompanhadas de um cartão, e nunca colocá-las sobre a urna a não ser que se seja alguém muito próximo do falecido.

E se não puder comparecer? Aqui talvez esteja a maior mudança dos últimos anos. Já não é obrigatório aparecer pessoalmente para mostrar que nos importamos. Uma mensagem escrita, seja por SMS, carta ou mesmo redes sociais, é perfeitamente aceitável, desde que seja breve, sincera e centrada na família, não em nós próprios.

Há também as perguntas que simplesmente não se fazem. Detalhes sobre a causa da morte, comentários sobre o aspeto do falecido, ou conversas que desviem a atenção para a nossa própria vida ou perda, ficam todas de fora. Nestes momentos, a frase mais simples costuma ser a mais eficaz: “se precisar de alguma coisa, conte comigo”.

E depois há a fotografia, ou melhor, a ausência dela. Nunca se tiram fotografias num velório ou numa cerimónia fúnebre, a menos que a própria família o peça expressamente. Parece óbvio escrito assim, mas basta pensar em quantas vezes o telemóvel sai do bolso por reflexo, mesmo nos piores momentos, para perceber que esta regra precisa mesmo de ser dita em voz alta.

Toda esta etiqueta resume-se a uma coisa só: discrição. Discrição no vestir, discrição no falar, discrição no gesto de tirar ou não tirar o telemóvel do bolso. Um funeral não é um palco para os vivos, é o último gesto de cuidado que prestamos a quem partiu e à família que fica. E se há um manual de boas maneiras que vale a pena aprender de cor, é este, precisamente porque é aplicado sempre no pior momento possível, quando ninguém tem cabeça para improvisar.

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