Nem sempre o produto mais barato é aquele que nos faz poupar mais. O custo por utilização pode ajudar a distinguir uma compra inteligente de um impulso disfarçado de oportunidade.
Há compras que parecem caras no momento em que passamos o cartão, mas que acabam por custar muito pouco ao longo do tempo. E há outras que parecem uma verdadeira pechincha, mas se tornam caras porque são usadas duas vezes, perdem qualidade rapidamente ou ficam esquecidas no fundo de uma gaveta.
É aqui que entra o chamado custo por uso: uma conta que divide o preço de um produto pelo número de vezes que acreditamos que o vamos utilizar.
A lógica não é nova, mas ganhou uma nova vida nas redes sociais associada ao conceito de girl math, a matemática informal, divertida e nem sempre rigorosa que usamos para justificar certas compras. Um vestido comprado com dinheiro devolvido “não custou nada”. Uma mala paga em prestações “fica quase gratuita por mês”. E uma peça usada dezenas de vezes “já se pagou”.
Por detrás do humor, existe uma pergunta bastante útil: quanto é que esta compra me vai custar cada vez que eu a usar? Imaginemos dois hidratantes. Um custa 120 euros e dura cerca de 120 dias. O seu custo por utilização será de aproximadamente um euro por dia. Outro custa 70 euros, mas termina ao fim de 35 dias. Apesar de ser mais barato no momento da compra, custa cerca de dois euros por dia.
Naturalmente, esta conta não significa que o produto mais caro seja obrigatoriamente melhor. A qualidade, a eficácia, a quantidade usada e as necessidades de cada pessoa continuam a ser importantes. Mas o exemplo mostra como olhar apenas para o preço pode levar-nos a conclusões enganadoras. O mesmo acontece com a roupa. Uns sapatos de 150 euros usados duas vezes custam 75 euros por utilização. Um par de 200 euros usado cem vezes custa apenas dois euros por utilização.
Quando é que esta conta faz sentido?
O custo por uso é especialmente útil nos produtos que fazem parte da nossa rotina e que sabemos que vamos utilizar muitas vezes. Um bom casaco, um colchão, umas sapatilhas confortáveis, uma panela resistente, um perfume de que realmente gostamos ou um produto de cuidado da pele usado diariamente podem justificar um investimento maior quando oferecem qualidade e durabilidade.
A conta também pode ajudar antes de comprar roupa para uma ocasião especial. Será que aquele vestido vai ser usado apenas numa festa? Pode ser combinado de outras formas? Vamos voltar a escolhê-lo ou estamos apenas seduzidos pelo momento? Pensar assim não elimina o prazer de comprar. Obriga apenas a imaginar a vida real do objeto depois de sair da loja.
Comprar melhor não significa comprar sempre o mais caro
Existe, no entanto, um risco: transformar o custo por uso numa desculpa para justificar qualquer extravagância. Dizer que uma mala muito cara “vai durar para sempre” não significa que será realmente usada durante anos. Da mesma forma, comprar cinco pares de sapatos “de qualidade” deixa de ser investimento quando já temos outros tantos que cumprem exatamente a mesma função.
A conta só funciona quando é realista. Quantas vezes vamos mesmo usar aquilo? O produto adapta-se à nossa rotina? Já temos algo semelhante? Estamos a comprar pela utilidade ou pela emoção?
Também não faz sentido investir mais em todos os produtos. Há objetos usados raramente em que a opção mais simples e económica pode ser suficiente. O importante é perceber onde vale a pena pagar pela qualidade e onde o preço elevado acrescenta pouco.
O lado menos divertido do consumo barato
Calcular o custo por uso pode ainda levar-nos a refletir sobre a forma como consumimos. Uma peça muito barata pode parecer inofensiva. Mas, quando perde a forma depois de poucas lavagens e é rapidamente substituída, gera mais despesa e mais desperdício. Comprar repetidamente produtos frágeis pode sair mais caro do que escolher menos coisas e mantê-las durante mais tempo.
Esta lógica não se resume à moda. Aplica-se à tecnologia, aos utensílios domésticos, aos produtos de beleza e até aos serviços que subscrevemos sem utilizar. Quanto custa, por sessão, aquela mensalidade do ginásio? Quantos filmes vemos realmente na plataforma de streaming? Quantas vezes usamos o pequeno eletrodoméstico que parecia indispensável no momento da compra?
Às vezes, o verdadeiro custo não está no preço. Está naquilo que comprámos e nunca chegámos a usar.
Uma conta simples antes de comprar
Antes de decidir, podemos fazer três perguntas: quantas vezes vou usar isto, durante quanto tempo deverá durar e já tenho algo que desempenha a mesma função? Não existe uma resposta perfeita, nem todas as compras precisam de ser racionais. Há objetos que compramos pelo prazer, pela beleza ou pelo significado emocional, e isso também tem valor. Mas, entre uma compra impulsiva e uma escolha consciente, pode caber uma divisão muito simples.
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