Há uns anos, “desinfluenciar” era sobretudo sinónimo de poupança. Alguém dizia que não precisávamos daquele produto de beleza hiperpromovido, ou que a mala de marca não valia o preço, e isso bastava para se chamar deinfluencing. Mas o conceito cresceu para algo bem mais profundo do que consumo. Já não se trata só de dizer não ao consumo, trata-se de assumirmos uma vida banal, mesmo que a internet insista no contrário.
A internet não nos vendeu apenas produtos, vendeu-nos uma nova régua do que é uma vida comum. E o resultado é que uma existência perfeitamente equilibrada, com trabalho, rotina, algum lazer e muito tempo vazio, começou a parecer pouco. A nossa referência de normalidade mudou tanto que uma vida vulgar passou a soar a insuficiente. Não porque a vida em si tenha piorado, mas porque o que vemos todos os dias nos ecrãs deixou de representar a média e passou a representar o extraordinário disfarçado de quotidiano.
O verão de todos ao mesmo tempo
Um dos exemplos mais certeiros é o verão europeu. Não é que subitamente tanta gente esteja em Itália ou na Croácia ao mesmo tempo, é que o algoritmo escolhe mostrar-nos, de repente, todas essas viagens em simultâneo, criando a ilusão de que é isso que “toda a gente” está a fazer agora. O mesmo acontece com os fins de semana. Um sábado normal, para a maioria das pessoas, não é brunch, pilates, yoga e bar à noite, é arrumar a casa, avançar num projeto pessoal e ver um filme no sofá. E isso continua a ser uma vida boa.
Três empregos, uma ong e dez hobbies
Também as carreiras sofreram esta inflação de expectativas. Ninguém precisa de três trabalhos diferentes, um projeto de voluntariado e dez hobbies para justificar a própria existência. Ser exatamente quem se é, aqui e agora, já é suficiente, mesmo sem um currículo paralelo cheio de rótulos. É uma ideia simples mas que custa a interiorizar depois de anos a ver perfis que parecem viver cinco vidas ao mesmo tempo.
O corpo também muda, e está tudo bem
Um corpo normal muda com o tempo, com as hormonas, com as fases da vida, e isso é normal, não uma falha a corrigir. A comparação constante com corpos editados ou momentaneamente perfeitos é um dos maiores motores de ansiedade que a internet alimenta, e devolver naturalidade a essa mudança é, em si, um ato de desinfluenciar.
Desinfluenciar é também um exercício de vigilância
Uma vida comum pode ser uma vida muito feliz, só é preciso ter cuidado para a internet não nos convencer do contrário. E é aqui que o desinfluenciar contemporâneo se distingue da sua versão original. Já não é apenas resistir a um produto, é resistir a uma narrativa inteira sobre o que uma vida bem vivida deveria parecer. É perceber que o feed que vemos é uma amostra editada e amplificada, não um espelho fiel da realidade de ninguém, e que medir a nossa vida por essa amostra é, por definição, um exercício perdido à partida.
Desinfluenciar hoje significa dar-se permissão para ser vulgar. Para ter um sábado sem brunch, um corpo que muda, uma carreira sem dez ramificações e ainda assim sentir que a vida está bem entregue. E, se calhar, é o mais parecido que temos de um antídoto real para a fadiga que vem de tentar acompanhar tudo o que a internet decidiu mostrar-nos ao mesmo tempo.
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