Os programas de televisão portugueses que marcaram a nossa infância

Há uma geração inteira que sabe exatamente o que estava a fazer às 18h de uma tarde de semana nos anos 90 e início dos 2000. Estava em frente à televisão. Não por falta de alternativas, uma vez que havia rua, vizinhos, vida lá fora. Mas havia também uma programação que criava uma espécie de ritual diário, um ponto de encontro coletivo que toda a gente na escola comentava no dia seguinte com a mesma referência partilhada.

Esses programas não eram apenas entretenimento. Eram linguagem comum, eram personagens que se tornavam mais familiares do que alguns familiares, eram a banda sonora de uma infância que, vista daqui, parece ter acontecido num Portugal completamente diferente deste. E era. Mas a nostalgia que esses programas ativam é real e não precisa de desculpa.

A infância televisiva portuguesa fez-se de blocos de programação que eram, no fundo, sagrados. As manhãs de fim de semana tinham um estatuto próprio, e programas como o Disney Kids faziam parte dessa liturgia. Era ali que se viam séries, desenhos animados, filmes e personagens que acabavam por definir o imaginário de uma geração inteira. O ritual era claro: acordar, ir para o sofá e passar uma boa parte da manhã entregue à televisão sem qualquer culpa.

O Médico de Família não era um programa para crianças, mas toda a gente com pais nos anos 90 viu. A série de ficção da SIC, protagonizada por Fernando Luís e Rita Blanco, foi a série portuguesa mais vista da sua época e um dos marcos da televisão nacional. Estreou em 1998 e durou até 2001. Na mesma época, entre 2000 e 2002, a série Super-Pai, com Joaquim Esparteiro, Madalena Brandão, Sofia Arruda e Filipa Maló, foi mais um sucesso de uma série para adultos que marcou a juventude.

A Rua Sésamo foi a versão portuguesa de Sesame Street e é, provavelmente, o programa que mais crianças portuguesas partilharam como experiência comum ao longo das décadas. Com personagens adaptados à realidade portuguesa e uma pedagogia disfarçada de entretenimento que ensinava letras, números e valores sem que nenhuma criança percebesse que estava a aprender, foi uma das produções mais importantes da história da televisão infantil em Portugal. A

Se houve um momento em que a televisão portuguesa nos fez sentir que também podíamos ter aventuras, mistérios e verões cinematográficos, foi com Uma Aventura. A adaptação televisiva dos livros conseguiu criar um imaginário muito próprio para uma geração inteira: amigos inseparáveis, férias cheias de confusão, crimes para resolver e aquela sensação de que qualquer passeio podia acabar numa perseguição. Era o tipo de série que nos fazia querer ter um grupo de amigos, bicicletas e um segredo para desvendar.

É impossível falar de infância televisiva em Portugal sem falar de Batatoon. Entre palhaçadas, jogos, convidados, sketches e uma energia que hoje seria difícil de explicar a uma geração criada no TikTok, o programa marcou uma época inteira. Tinha aquele lado meio caótico, meio improvisado, mas era precisamente isso que o tornava memorável. E mesmo quem já não se lembra de episódios concretos lembra-se perfeitamente da existência de Batatinha e Companhia como uma instituição da infância portuguesa.

Mesmo quem era pequeno demais para perceber tudo, lembra-se do fenómeno que foi Chuva de Estrelas. As imitações, os figurinos, os concorrentes transformados em versões miniatura de artistas famosos, a expectativa em torno de cada atuação, havia ali qualquer coisa de muito magnético. Foi um daqueles formatos que atravessou idades e que fez parte da cultura pop portuguesa de uma forma difícil de replicar.

A lista é muito mais longa. Não nos podemos esquecer dos Morangos com Açúcar, de Inspetor Max, de Zip Zip e de Big Show SIC. Estes programas foram feitos num tempo em que a televisão portuguesa investia em produção nacional, em formatos originais, em conteúdo pensado para um público específico com uma identidade específica. A televisão de hoje faz escolhas diferentes, com razões que se percebem, mas o que se perdeu no processo é visível: a ideia de que a programação nacional pode criar referências coletivas, pontos de encontro que toda uma geração partilha e que ficam décadas depois como marca de um tempo.

Esses programas eram imperfeitos, eram da sua época e tinham os limites do seu tempo. Mas eram nossos. E isso deixa algumas saudades.

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