Por vezes, viajar começa num sofá, numa sala de cinema ou numa página de livro. É o momento em que um lugar entra no ecrã ou na imaginação de tal forma que deixa de ser cenário e se torna destino. Que a vontade de estar lá, de respirar aquele ar específico e andar naquelas ruas específicas, se torna mais forte do que qualquer guia de viagem conseguiria alguma vez criar.
Chama-se set-jetting e é uma das tendências de turismo que mais cresceu na última década, impulsionada pelo streaming global e pela capacidade que as plataformas têm de transformar um lugar desconhecido num objeto de desejo universal da noite para o dia.
A ideia não é nova. Verona sempre soube o que devia à ficção. A cidade italiana recebe mais de um milhão de visitantes por ano que vêm especificamente por causa de Romeu e Julieta, uma história que Shakespeare nunca viveu, num lugar onde os dois amantes nunca existiram, com uma varanda que foi construída décadas depois da peça para satisfazer a procura dos turistas. O mito é suficientemente poderoso para criar uma realidade. A Casa di Giulietta tem filas todos os dias. As cartas de amor deixadas na parede à entrada são recolhidas regularmente e respondidas por voluntários. A ficção tornou-se infraestrutura turística.
A Escócia viveu algo semelhante com Outlander. A série, baseada nos romances de Diana Gabaldon, transformou paisagens das Highlands que já eram bonitas em destinos de peregrinação para uma comunidade de fãs com um nível de dedicação que a indústria turística escocesa ainda está a aprender a gerir. O Castelo de Doune, que serviu de cenário para Castelo Leoch na série, registou um aumento de visitantes de 230% após a estreia da primeira temporada. A Visitscotland, a agência de turismo escocesa, criou guias específicos de set-jetting para Outlander e continua a atualizá-los a cada nova temporada.
A Nova Zelândia construiu uma parte significativa da sua identidade turística moderna em cima da trilogia do Senhor dos Anéis. O país era pouco visitado antes de Peter Jackson o escolher como cenário de Terra-Média. Hoje, a Hobbiton, o cenário construído no Condado, é uma das atracções turísticas mais visitadas do país e o governo neozelandês foi um dos primeiros do mundo a perceber que apoiar produções cinematográficas internacionais era, de facto, política de turismo. O retorno financeiro foi de tal ordem que criaram um departamento governamental dedicado ao film tourism.
Dubrovnik é talvez o exemplo mais recente e mais extremo do poder do set-jetting. Após ser escolhida como cenário de Porto Real em Game of Thrones, a cidade croata passou de destino turístico de nicho a um dos lugares mais fotografados da Europa, com consequências que a própria cidade não antecipou e que incluem debates sérios sobre overtourism, capacidade de carga e a tensão entre preservação do centro histórico, classificado pela UNESCO, e o fluxo de visitantes que chegam especificamente para refazer cenas da série.
Em Portugal, o set-jetting tem tido um impacto mais silencioso, mas igualmente real. Lisboa e os seus bairros históricos aparecem com crescente frequência em séries e filmes internacionais e, cada vez que isso acontece, existe um reflexo mensurável nas pesquisas de viagem e nas reservas de alojamento provenientes dos países onde essas produções foram exibidas. Nos Açores, Rabo de Peixe tornou-se um dos exemplos mais evidentes deste fenómeno, ao transformar São Miguel num destino desejado por muitos dos espectadores que descobriram a ilha através da série.
O que torna o set-jetting diferente de outras formas de turismo é a qualidade emocional da visita. Quem vai a Verona por causa de Romeu e Julieta não vai ver uma cidade, vai em busca de algo. Quem atravessa as Highlands escocesas com Outlander na cabeça não está simplesmente a viajar, está a habitar uma história que já conhece. Há uma intimidade prévia com o lugar que nenhuma brochura turística consegue criar e que a ficção cria naturalmente, sem esforço, às vezes em 45 minutos de episódio.
Essa intimidade tem um lado que merece reflexão. O lugar real raramente é o lugar da ficção. Dubrovnik não é Porto Real. Verona não é a Verona de Shakespeare. A Hobbiton é um cenário construído numa quinta da Nova Zelândia para uma história que se passa num mundo que não existe. A deceção do set-jetter que vai à procura da ficção e encontra a realidade pode acontecer. Porém, os viajantes mais interessantes são os que usam a ficção como porta de entrada mas que entram mesmo. Que chegam a Sevilha por causa de Carmen e descobrem a cidade. Que chegam à Toscana por causa de Sob o Sol da Toscana e percebem que a Itália real é melhor do que a versão do livro.
A ficção dá a razão para ir. O que se encontra quando se chega já não é ficção e é aí que as melhores viagens começam.
#GlitterUpYourLife