Janeiro é o mês das resoluções, das agendas novas e da ideia de que este ano vamos tratar de tudo a tempo. Mas a verdade é que, quando julho chega, há sempre uma lista de coisas que foi ficando para depois. Entre trabalho, filhos, férias, logística e o cansaço normal da vida adulta, há um item que costuma escorregar facilmente para o fim da fila: os exames de rotina e os rastreios que sabemos que devíamos fazer, mas continuamos a adiar.
O check-up de meio do ano pode ser um bom pretexto para travar essa tendência. Não no sentido de marcar “análises a tudo” sem critério, mas de prevenir e perceber o que está realmente em falta, sobretudo quando há rastreios recomendados pela idade, antecedentes familiares, fatores de risco ou sintomas que têm sido ignorados.
A ideia é aproveitar esta pausa simbólica do calendário para fazer aquilo que tanta gente empurra de trimestre em trimestre: confirmar que está tudo bem ou, se não estiver, apanhar o problema cedo.
Nem toda a prevenção passa por um check-up clássico. Aliás, várias recomendações médicas alertam para o facto de um “pacote” anual de exames sem indicação nem sempre ser a abordagem mais útil. O que faz sentido é uma avaliação individual, feita com base na idade, histórico clínico, medicação, estilo de vida e antecedentes familiares. Ainda assim, há um conjunto de exames e rastreios que muitas pessoas tendem a adiar por falta de tempo, desconforto, medo do resultado ou simples procrastinação.
1. Análises de rotina
Análises ao sangue e, em alguns casos, à urina, sobretudo quando já existem fatores de risco cardiovasculares, excesso de peso, antecedentes de diabetes, tensão alta, colesterol elevado ou medicação que exige vigilância. Dependendo do caso, o médico pode pedir parâmetros como glicemia, perfil lipídico, função renal, função hepática, hemograma ou TSH.
2. Medição da tensão arterial
A hipertensão pode evoluir durante anos sem sintomas claros, e é um dos fatores de risco mais importantes para doença cardiovascular, AVC e doença renal. Se já não medes a tensão há muito tempo ou se costumas ter valores no limite, este é um daqueles mínimos olímpicos que não vale a pena continuar a adiar.
3. Rastreios ginecológicos
É um dos capítulos onde a procrastinação mais pesa, muitas vezes por falta de tempo, desconforto ou aquela sensação de “não tenho sintomas, por isso não deve ser urgente”. Mas o rastreio do colo do útero continua a ser um dos exames preventivos mais importantes para muitas mulheres, tal como a ecografia mamária e a mamografia nas idades e intervalos recomendados para rastreio do cancro da mama. O calendário exato depende da idade, do tipo de rastreio usado e do histórico individual, por isso o mais importante é confirmar se estás dentro do período recomendado ou se já deixaste passar mais tempo do que pensavas.
4. Rastreio do cancro colorretal
É um dos exames mais adiados de todos, talvez porque ninguém acha particularmente apelativa a ideia de falar sobre intestinos, muito menos de marcar uma colonoscopia. Mas o rastreio do cancro colorretal é um dos que mais benefício pode ter quando feito a tempo, e as recomendações atuais já apontam para o início do rastreio em muitos adultos a partir dos 45 anos, dependendo do país, do método utilizado e do risco individual. Em alguns casos o rastreio faz-se com testes às fezes; noutros, com colonoscopia. Seja qual for o método, é um daqueles temas que vale a pena discutir com o médico antes de continuar a adiar por puro desconforto psicológico.
5. Check-up dermatológico
Muitas pessoas olham para a pele todos os dias, mas raramente a observam com atenção clínica. E no verão isso torna-se ainda mais relevante. Se tens muitos sinais, histórico familiar de cancro da pele, pele muito clara, exposição solar acumulada ou notaste alguma alteração num sinal, textura ou mancha, um check-up dermatológico pode ser uma boa ideia.
6. Exames que dependem de ti e não do calendário dos outros
Há rastreios que não são para toda a gente, mas que podem ser importantes em determinados perfis: avaliação da densidade óssea em mulheres mais velhas ou com risco de osteoporose, rastreio do cancro do pulmão em fumadores ou ex-fumadores, testes de VIH ou hepatites em determinados contextos, PSA ou avaliação urológica em homens com sintomas ou antecedentes, entre outros. Aqui, copiar o check-up do colega raramente é boa estratégia. O que interessa é o teu risco real.
O mais importante: não transformar prevenção em excesso
Há um equilíbrio importante a fazer. Adiar rastreios recomendados não é boa ideia, mas cair na lógica de pedir exames aleatórios só para ver se está tudo bem também não é necessariamente medicina preventiva de qualidade. Um bom check-up não é o que inclui mais análises; é o que faz sentido para aquela pessoa, naquele momento, com base na sua história clínica e nos rastreios que realmente estão em falta.
Por isso, marca uma consulta de medicina geral ou do teu médico assistente e faz uma revisão do que está pendente. Que rastreios já devias ter feito? Que exames precisam de ser repetidos? Que sinais tens desvalorizado? O que mudou no teu corpo ou no teu histórico desde o último check-up?
Às vezes, a melhor prevenção não é fazer mais. É simplesmente deixar de adiar o que já sabes que está na altura de tratar.
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