“Doutora, nunca tive muita libido. Será que há algo de errado comigo?”

Recebo esta pergunta com alguma regularidade. Vem formulada de formas diferentes, mas o cerne é sempre o mesmo: uma mulher que sente pouco desejo sexual, que sempre se sentiu assim e que quer saber se é patológica. A minha resposta curta é: provavelmente não. A resposta longa é este artigo.

O que é, afinal, o desejo “normal”?

A medicina e a psiquiatria têm uma relação historicamente complicada com a sexualidade feminina. Durante décadas, o problema era demasiado desejo, a histeria, a ninfomania, aqueles “diagnósticos” que hoje nos envergonham. Depois veio uma espécie de correção de curso que, com as melhores intenções, trouxe os seus próprios excessos.

Hoje, o discurso dominante, amplificado por uma certa sexologia muito mediática e muito confiante, tende a tratar o desejo sexual como um parâmetro de saúde universal, quase como a pressão arterial ou os níveis de glicose. Algo que se deve ter, em determinada quantidade e cuja ausência é um problema a resolver. Esta lógica merece ser questionada com seriedade.

O desejo sexual varia enormemente entre pessoas: em frequência, em intensidade, em forma. Esta variação é fisiológica, temperamental e contextual. Há mulheres com desejo frequente e espontâneo, há mulheres cujo desejo é predominantemente responsivo (surge em resposta a estímulos, não antecipadamente), há mulheres que experienciam pouco ou nenhum desejo e vivem completamente bem com isso. Nenhuma destas configurações é, em si mesma, uma doença. O que converte uma característica numa perturbação clínica não é o desvio de uma média estatística, é o sofrimento que causa a quem a vive ou o prejuízo funcional significativo na vida dessa pessoa. É uma distinção que faz toda a diferença.

Quando é que vale a pena investigar

Há situações em que uma alteração do desejo merece atenção médica e é importante dizê-lo com clareza para não cair no extremo oposto. Uma diminuição abrupta do desejo, sobretudo quando representa uma mudança face ao estado habitual da pessoa, pode ser sinal de algo que merece avaliação: perturbações depressivas ou ansiosas, disfunções tiroideas, alterações hormonais, efeitos secundários de medicação (os antidepressivos serotoninérgicos são um exemplo clássico e frequente), entre outros.

Mas, e este “mas” é essencial, quando o baixo desejo é uma característica estável, de longa data e a mulher não experiencia sofrimento por causa disso, não estamos perante uma perturbação. Estamos perante uma variante da experiência humana.

A questão que raramente se coloca

Há uma pergunta que, curiosamente, quase nunca aparece nos artigos de divulgação sobre “disfunção do desejo feminino”: e se o problema não for o desejo dela, mas as expectativas dele?

Vivemos ainda numa cultura em que a libido masculina tende a ser tida como o padrão de referência. Quando existe uma discrepância de desejo num casal, o enquadramento quase automático é que a mulher tem um défice. Raramente se considera, com igual seriedade, a hipótese de o parceiro ter um nível de desejo que não é universalmente normativo e que talvez também ele possa trabalhar as suas expectativas. Não é uma crítica às pessoas, é uma crítica à assimetria do enquadramento. A negociação sexual numa relação é uma responsabilidade partilhada e as soluções também o devem ser.

De um puritanismo a outro

Portugal tem uma história particular com este tema. Saímos relativamente há pouco de décadas de moralismo religioso que rodeou a sexualidade feminina de vergonha e silêncio. A libertação desse peso foi, em grande medida, necessária e bem-vinda.

Mas assistimos, nos últimos anos, a uma espécie de inversão que merece uma reflexão: passou-se de uma cultura em que o sexo era proibido e vergonhoso para uma em que a sua celebração entusiástica parece quase obrigatória. A pressão mudou de carácter, mas não desapareceu. Uma mulher que não prioriza a sua vida sexual, que não está interessada em “melhorar o desejo”, que simplesmente tem outras coisas que lhe importam mais, esta mulher encontra hoje, com alguma facilidade, vozes que a informam de que está a desperdiçar algo, que há um problema por resolver, que deveria querer mais. Há algo de profundamente contraditório em substituir uma forma de “vergonha” por outra.

O sexo vende, e vende bem

Seria ingénuo ignorar o contexto económico em que este discurso prolifera. A indústria em torno da saúde sexual (suplementos, programas, consultas, workshops, conteúdo de subscrição) é lucrativa precisamente porque se alimenta da criação de necessidades. Quanto mais pessoas se sentirem deficitárias, mais produtos e serviços existem para lhes vender.

Não digo isto para desqualificar o trabalho sério e necessário que existe na área da sexologia clínica: existe e é valioso. Digo-o para que possamos ler com alguma distância crítica o conteúdo produzido por quem tem interesse direto em que nunca nos sintamos suficientemente satisfeitas com a nossa vida sexual. O otimismo comercial não é o mesmo que evidência científica.

Voltando à pergunta inicial

Se a sua resposta a “como está a sua vida sexual?” é “tranquila, não é uma prioridade para mim, e estou bem assim”: isso não é um sintoma. Não precisa de ser investigado, tratado ou superado.

Se, por outro lado, sente que algo mudou, que o que experimenta hoje é diferente do que experienciava antes ou que isso lhe causa sofrimento genuíno, aí sim, vale a pena conversar com a sua médica e explorar causas com base na sua história clínica individual.

A saúde sexual, como a saúde em geral, não se define pela conformidade com uma norma exterior. Define-se pelo bem-estar subjetivo de cada pessoa, pela ausência de sofrimento e pela capacidade de viver uma vida que faça sentido para si. Isso pode incluir uma vida sexual ativa e central. Pode também incluir uma vida em que o sexo ocupa um lugar modesto, periférico ou inexistente.

Ambas são, em princípio, perfeitamente saudáveis.

Artigo por Inês Costa Maia

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