Guia da Madeira — o óbvio, o menos óbvio e o que quase ninguém te conta

A 1 de julho celebra-se o Dia da Região Autónoma da Madeira e há poucas razões melhores para falar de uma ilha que continua a surpreender mesmo quem já lá foi mais do que uma vez. Porque a Madeira tem duas versões: a que aparece em todos os guias, e a que se descobre quando te afastas do circuito habitual. Este guia tem as duas.

O óbvio, mas que mesmo assim não podes perder

Há coisas que são óbvias por uma razão muito simples: são mesmo extraordinárias.

O Pico do Arieiro ao nascer do sol é uma daquelas experiências que ficam. Com 1818 metros de altitude, é o terceiro ponto mais alto da ilha e quando as nuvens estão abaixo de ti e o céu muda de cor enquanto o sol sobe, perdes completamente o sentido do exagero. É preciso acordar cedo. Vale cada minuto de sono perdido.

O Cabo Girão é o promontório mais alto da Europa, com 580 metros de altitude. O miradouro tem uma plataforma em vidro, a Skywalk, pronta a testar as vertigens dos mais corajosos. Olhares para baixo e vês o mar e os campos agrícolas nas fajãs e percebes imediatamente porque é que a Madeira continua a deixar toda a gente sem palavras.

As piscinas naturais de Porto Moniz são as mais famosas da ilha. Existem duas zonas: as que foram adaptadas para uso público e as mais naturais, perto do forte. A lava, o Atlântico e o contraste de tons de azul e verde fazem deste um dos lugares mais fotografados da ilha e ainda assim, quando lá estás, parece que é só teu.

As levadas são canais de água criados com a finalidade de levar a água das montanhas para as plantações e para as povoações. A maravilha está em que percorrem a Floresta Laurissilva, um tipo de floresta húmida subtropical endémica da região, considerada Património Natural da Humanidade pela UNESCO. Caminhar ao longo de uma levada é perceber porque é que a Madeira não se parece com mais nenhum lugar do mundo.

O Mercado dos Lavradores no Funchal é turístico e mesmo assim merece estar no roteiro. Encontras tudo o que a Madeira tem de melhor, desde a fruta, os legumes, os produtos regionais, as especiarias e o peixe fresco, por vezes com dimensões maiores do que estamos acostumados a ver.

O menos óbvio, para quem quer ir mais fundo

O teleférico das Achadas da Cruz, na zona de Porto Moniz, é uma das experiências mais surpreendentes da ilha e uma das menos conhecidas. Afirma ser o mais íngreme da Europa, com 451 metros de altura sobre 600 metros. Está escrito que o início tem um declive de 98%. O bilhete de ida e volta custa 3€. A maioria dos visitantes vai a Porto Moniz pelas piscinas e não chega a descobrir isto.

O teleférico da Rocha do Navio, em Santana, é outro que fica fora do circuito habitual. Mesmo que não apanhes o teleférico, a vista do topo é deslumbrante. Se decidires descer, há mais quedas de água para admirar pelo caminho. O bilhete custa 5€.

O Calhau da Lapa é acessível por um trilho ou de barco. A descida leva-te a uma cascata e depois a uma praia secreta no fundo das falésias vulcânicas. É um esforço real e é uma das coisas mais únicas que a ilha tem para oferecer.


A Cascata dos Anjos cai directamente sobre a estrada entre Madalena do Mar e Praia dos Anjos. Podes parar o carro, sair e deixares que a cascata caia sobre ti, o que é, muito provavelmente, o car wash mais original de Portugal.

O Curral das Freiras, também chamado Vale das Freiras, é um dos sítios mais pitorescos da ilha uma aldeia encaixada entre montanhas que só ficou com estrada na década de 1960. Há uma grande festa dedicada à castanha em novembro, onde se mostram as várias possibilidades de cozinhados com castanha, entre broas, bolos, sopas, licores e compotas, para além das tradicionais castanhas assadas ou cozidas. Para ter uma vista panorâmica, podes visitar o Miradouro da Eira do Serrado, a uma altitude de 1095 metros.

O que quase ninguém te conta

Os Engenhos do Norte, em Porto da Cruz, são o único engenho na Europa a trabalhar a vapor. Estão abertos todos os dias das 10h às 18h. É aqui que podes provar rum agrícola feito da forma mais antiga e autêntica que existe e perceber porque é que a poncha da Madeira não tem substituto.

No final de 2019, foi retirado do mar o primeiro lote de garrafas de rum que esteve a maturar durante oito meses no fundo do mar madeirense. Trata-se do Rum Agrícola Madeira 970 Reserva da Destilaria Engenhos do Norte. Um produto completamente único no mundo e nascido na Madeira.

A Livraria Esperança, no Funchal, é a primeira livraria da Madeira, fundada em 1886, com raríssimas edições esgotadas em Portugal e no Brasil. É o tipo de sítio que se descobre por acaso e onde se fica muito mais tempo do que estava planeado.

A Fábrica de Chapéus de Santa Maria, na Zona Velha do Funchal, é a única na ilha a fazer os chapéus de vime tradicionais da Madeira. Não é uma atracção turística de massas, é um ofício que continua vivo, num sítio que ainda cheira a artesanato real.

A Madeira Cook Experience começa com uma visita ao Mercado dos Lavradores para escolher o peixe fresco e os melhores produtos para a refeição. Ensinam-te depois a amanhar o peixe, a temperá-lo e cozinhá-lo, do atum ao espada, a fazer acompanhamentos e a fazer a verdadeira poncha. Acontece no Armazém do Mercado. Uma forma de levar a Madeira para casa de uma forma que nenhuma lembrança consegue substituir.

A Rota das Bananeiras, na Madalena do Mar, percorre cerca de 2 km de plantações de bananeiras, permitindo admirar diversas espécies num percurso fácil de cerca de 30 minutos, ideal para famílias, entre a montanha e o mar. É o tipo de passeio que não aparece nos highlights mas que fica na memória pela sua simplicidade.

O que comer, sem margem para erro

A espetada de novilho em pau de loureiro é a experiência gastronómica mais específica da ilha, o sabor que a madeira de loureiro dá à carne não existe em mais nenhum lugar do mundo. O peixe espada com banana é outro prato que parece improvável e resulta completamente. O bolo do caco com manteiga de alho é a razão pela qual ninguém consegue comer apenas um. E a poncha, feita com aguardente de cana de açúcar, mel de abelha e sumo de limão, é simultaneamente aperitivo, digestivo e, segundo os madeirenses, remédio.


A Madeira é uma ilha que recompensa quem vai sem pressa. Não a que se faz em dois dias com carro alugado e lista de miradouros. A que se descobre quando sais da estrada rápida, quando perguntas aos locais, quando te sentes numa esplanada sem saber exactamente o que vem a seguir.

É pequena o suficiente para conheceres bem. E grande o suficiente para nunca a conheceres completamente.

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