Há filmes que se veem e esquecem. E há filmes que ficam. Não necessariamente porque são perfeitos, mas porque tocam em qualquer coisa que já estava lá, dentro de ti, à espera de ser nomeada. Atenção: contém spoilers.
Mensagens para Isabelle conta a história de Jill, uma jovem chef que tenta lidar com a morte da irmã mais nova, Isabelle, deixando mensagens de voz no antigo número dela. O que Jill não sabe é que o número foi reatribuído a Wes, um corretor de imóveis reservado que começa a ouvir as suas confissões, as histórias mais embaraçosas, os segredos mais honestos, e inevitavelmente se apaixona por elas.
É, no papel, uma comédia romântica. Na prática, é um filme sobre luto. Sobre saudade. Sobre todas as coisas que ficam por dizer quando alguém vai embora demasiado depressa.
Queria ter uma irmã assim
Os flashbacks que mostram a relação entre Jill e Isabelle, afetuosa, divertida e cúmplice desde a infância, são o tipo de ligação que faz qualquer pessoa querer pegar no telemóvel e ligar à irmã, ou desejar ter uma, se não tiver. Há uma cumplicidade entre elas que parece fácil mas que é na verdade a coisa mais rara do mundo: duas pessoas que se conhecem completamente e escolhem estar lá de qualquer forma.
Fiquei a pensar nisso durante muito tempo depois de acabar o filme. Em quantas relações assim temos na vida. Em como as tratamos como garantidas até deixarem de o ser.
O chefe intragável como alívio cómico que também é verdade
Nick Offerman surge como Chef Bastien, um chefe de cozinha excêntrico e completamente desvairado com quem Jill tem de lidar diariamente. É o alívio cómico do filme e é também um espelho reconhecível para quem já trabalhou com alguém difícil. Aquela pessoa que tem poder sobre a tua vida profissional e o usa de forma completamente desproporcionada. Que faz do teu trabalho um campo minado. Que te faz questionar se o sonho vale mesmo a pena.
Toda a gente conhece um Chef Bastien. E há qualquer coisa muito libertadora em vê-lo no ecrã, ridículo e exagerado, e perceber que não és só tu.
As mensagens que nunca mais podes enviar
Mas o que o filme me fez mesmo foi lembrar alguém. Quem já perdeu alguém especial, sabe o que digo. Sabe o que é, nos primeiros tempos, pegar no telemóvel para enviar uma mensagem. Para contar qualquer coisa engraçada que tinha acontecido. Para pedir uma opinião. Para dizer que estamos a naquele sítio que ele gostava. Ainda ter o seu número nos favoritos. Nunca ter coragem de o apagar.
A realizadora do filme contou que a ideia surgiu há mais de sete anos, durante um show de comédia, quando começou a pensar nas pessoas cuja voz sentiria mais falta. É uma pergunta simples e completamente devastadora: de quem é que sentirias mais falta da voz?
Eu sei a resposta. E aposto que tu também sabes.
Há uma cena no filme em que Jill deixa uma mensagem no número da irmã e diz, quase sem querer, tudo o que não conseguiu dizer em vida. É o tipo de cena que não avisa quando vai acontecer. É o tipo de cena que apanha desprevenida e não deixa sair indiferente.
Os dates que correm mal e o amor em que deixamos de acreditar
O filme é também, inevitavelmente, uma história de amor. E a honestidade das mensagens de voz de Jill é precisamente o que faz Wes apaixonar-se por ela: não a versão editada que mostramos nos primeiros encontros, mas a versão real, confusa, imperfeita e completamente desarmada de qualquer performance.
Há qualquer coisa muito bonita nessa ideia. E também qualquer coisa muito melancólica para quem já passou por uma sequência de encontros que não levaram a lado nenhum. Aquela fase em que cada date parece um teste que não estudaste, em que começas a desacreditar que existe alguém que te vai conhecer de verdade e continuar lá.
Já todos passámos por isso. Aquele período em que o amor parece uma coisa que acontece aos outros, em filmes com banda sonora bonita e luz dourada, não na vida real com as suas conversas estranhas e os seus silêncios desconfortáveis.
O filme não resolve isso com facilidade. E é por isso que funciona.
A saudade de uma cidade que ficou para trás
Jill vive em São Francisco longe de tudo o que conhecia. E há um fio subtil ao longo do filme que é o de alguém que partiu e que carrega esse lugar de origem como um peso e uma âncora ao mesmo tempo. A culpa de não ter chegado a tempo. A saudade do que ficou para trás. A sensação de estar a construir uma vida nova num sítio que ainda não é completamente teu.
Quem alguma vez saiu da sua cidade saberá. Não é solidão exatamente. É uma outra coisa, mais difusa, que não tem bem nome mas que o filme captura com uma honestidade que surpreende.
Vale a pena ver?
Sim. Mesmo que não seja perfeito, mesmo que alguns momentos escorreguem para o clichê, o que o filme quer mesmo dizer não é sobre o romance mas sobre as diferentes formas de lidar com o luto e a dificuldade de seguir em frente após perder alguém que se ama.
E isso, dito com este cuidado e esta honestidade, chega mais do que suficiente.
Vai ver. Leva lenços. E depois telefona a alguém de quem tens saudades antes que seja tarde demais.
#GlitterUpYourLife