Há um momento muito específico em que a cultura pop e o movimento LGBTQ+ se encontraram de forma irreversível. Não foi de um dia para o outro, não foi linear e não foi sem contradições. Mas o resultado está à vista: o Pride deixou de ser uma subcultura para se tornar uma das forças estéticas, narrativas e comerciais mais influentes da cultura contemporânea.
Junho é o mês em que isso fica mais visível. As marcas vestem o arco-íris, as plataformas de streaming lançam documentários, os artistas fazem declarações, as séries têm os seus arcos de personagens queer em destaque. Mas a história entre o movimento e a cultura pop é muito mais longa, mais complexa e mais fascinante do que um mês de campanhas coloridas sugere.
Tudo começa muito antes do que a maioria pensa. As drag queens e os clubes noturnos foram os primeiros palcos onde a cultura queer se expressou livremente, e foi dessa cena underground que saíram os ritmos, os visuais e a atitude que mais tarde o pop mainstream absorveu sem sempre dar o crédito devido. O vogueing, ou vogue, nasceu nas balls de Harlem nos anos 70 e 80, dentro de uma comunidade de pessoas negras e latinas queer que criaram uma forma de arte e de resistência ao mesmo tempo. Décadas depois, Madonna levou o vogueing para os palcos de todo o mundo com o single Vogue em 1990, e o resto da indústria seguiu. É um padrão que se repete ao longo de toda a história: a cultura queer cria, a cultura mainstream adopta.
A televisão foi durante décadas o reflexo mais honesto do que a sociedade estava disposta a aceitar e por isso mesmo o lugar onde as conquistas e os recuos são mais visíveis. Ellen DeGeneres fez história em 1997 quando a sua personagem na sitcom Ellen assumiu a homossexualidade num episódio que foi simultaneamente o momento mais assistido da série e o início do fim do seu contrato. As consequências foram reais: perdeu patrocinadores, a série foi cancelada no ano seguinte e a sua carreira demorou anos a recuperar. O episódio chama-se The Puppy Episode, de nome em código para que ninguém soubesse do que se tratava durante a produção, e é considerado um dos momentos mais importantes da história da televisão norte-americana.
Will and Grace chegou em 1998 e mudou a conversa de forma diferente: sem drama, sem manifesto, com humor e com personagens gays que eram protagonistas de uma comédia de sucesso em horário nobre. Estudos realizados anos depois sugeriram que a série teve um impacto mensurável na forma como os americanos percepcionavam os seus conhecidos gays. Bill Clinton afirmou que Will and Grace fez mais pela aceitação da comunidade LGBTQ+ do que qualquer campanha política. É uma declaração que diz muito sobre o poder da ficção na transformação de mentalidades.
O cinema demorou mais. Brokeback Mountain chegou em 2005 e ganhou três Óscares, incluindo Melhor Realizador para Ang Lee, mas perdeu o Melhor Filme para Crash num resultado que ainda hoje é citado como um dos mais contestados da história da Academia. A conversa à volta da derrota ajudou, paradoxalmente, a tornar o filme ainda mais cultural: tornou-se símbolo de algo que a indústria ainda não estava pronta para premiar completamente. Moonlight ganhou o Óscar de Melhor Filme em 2017 numa cerimónia que ficou na história por outras razões também, e tornou-se o primeiro filme com elenco exclusivamente negro e temática queer a vencer a categoria principal.
A música é talvez o território onde a relação entre o Pride e a cultura pop é mais antiga e mais complicada. Artistas como David Bowie, Freddie Mercury, Elton John e George Michael viveram identidades queer em diferentes graus de abertura pública, num tempo em que ser assumidamente gay na indústria musical era considerado um risco de carreira. Freddie Mercury nunca confirmou publicamente a sua homossexualidade em vida, mesmo sendo amplamente conhecido o facto. Só em 1991, dias antes de morrer, confirmou publicamente que tinha SIDA. George Michael foi forçado a sair do armário em 1998 após um incidente num parque de Los Angeles, e transformou isso numa das comebacks mais elegantes da história da música pop com o single Outside, filmado numa casa de banho pública. A capacidade de transformar vulnerabilidade em arte é uma das características mais consistentes dos artistas que navegaram estas águas.
A geração seguinte chegou com mais espaço e mais escolhas. Sam Smith assumiu a não-binaridade em 2019 e pediu a actualização dos pronomes para they/them, tornando-se um dos artistas mais visíveis do mainstream a fazê-lo. Lady Gaga, Lil Nas X, Pablo Vittar são também referências para esta nova geração queer que, hoje, tem ferramentas, audiências e precedentes que não existiam há vinte anos.
A RuPaul’s Drag Race é provavelmente o fenómeno cultural mais importante desta história na última década e meia. Estreou em 2009 num canal de cabo pouco conhecido, com um orçamento que era quase nada, e tornou-se uma das franquias de reality television mais bem-sucedidas do mundo, com versões em dezenas de países incluindo Portugal. Levou a arte drag para salas de estar que nunca tinham tido contacto com essa cultura, criou um vocabulário que entrou no uso corrente, e lançou carreiras que existem muito para além do programa. Termos como “sis”, “werk”, “shade”, “tea”, “reading” e “slay” são hoje usados por pessoas que nunca viram um episódio do programa e vieram diretamente da cultura queer afro-americana que a drag race tornou visível a uma escala global.
Há, no entanto, uma tensão que é importante nomear e que a cultura pop não resolve apenas por existir. O Pinkwashing é o termo que descreve a adopção de símbolos e estética LGBTQ+ por marcas e instituições sem correspondência real em políticas ou apoios concretos à comunidade. O arco-íris nos logótipos de junho que desaparece em julho. As campanhas de Pride de marcas que continuam a financiar políticos com posições anti-LGBTQ+.
A representação importa, e os dados confirmam-no. Estudos sobre saúde mental em jovens LGBTQ+ mostram consistentemente que a visibilidade positiva nos media está associada a melhores indicadores de bem-estar, menor isolamento e maior sentido de pertença. Ver alguém parecido contigo numa série, num filme, numa música, não é um pormenor estético. É, para muita gente, a diferença entre sentir que existe espaço para si no mundo ou não.
A cultura pop não criou o movimento LGBTQ+ e não o vai salvar. Mas foi, em muitos momentos históricos, o lugar onde a conversa aconteceu primeiro, onde as mentes mudaram antes das leis, onde a empatia encontrou um caminho através da ficção e da música e da televisão quando a política ainda não estava pronta para ouvir. E isso, independentemente de todas as contradições e de todo o pinkwashing, é uma forma de poder que não deve ser subestimada.
O Pride não é um mês de junho. É um argumento de longa data sobre quem tem o direito de existir plenamente, de ser amado, de ser visto. A cultura pop foi, inesperadamente, um dos palcos onde esse argumento ganhou mais terreno.
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