Há canções que ficam na cabeça durante dias. E há canções que podem fazer muito mais do que isso. Segundo Diana Moreira, terapeuta da fala especializada em Neuropsicologia Pediátrica, a música desempenha um papel importante no desenvolvimento da linguagem das crianças e os seus benefícios começam ainda antes do nascimento.
A propósito do Dia Europeu da Música, que se assinala a 21 de junho, a especialista explica que, por volta do quinto mês de gestação, o sistema auditivo do bebé já está formado e permite-lhe contactar com o mundo sonoro. Antes mesmo de nascer, o bebé consegue reconhecer a voz materna, reagir a estímulos sonoros e começar a construir as primeiras bases da comunicação.
“Diversos estudos demonstram que a exposição à música, nos primeiros anos de vida, contribui para o desenvolvimento das capacidades comunicativas (tanto verbais como não verbais), da memória, da atenção, das funções executivas e da aprendizagem. Quando a criança canta, ouve ou produz música, ativa várias áreas do cérebro em simultâneo: sistemas auditivos, motores, cognitivos e emocionais. Este processo favorece a criação de ligações neuronais que estão diretamente relacionadas com a linguagem”, explica Diana Moreira.
A relação entre música e linguagem não é coincidência. Ambas são compostas por sons organizados segundo regras, dependem do ritmo, da entoação e da capacidade de distinguir pequenas diferenças sonoras, além de utilizarem mecanismos auditivos e vocais semelhantes. É precisamente por isso que a música tem impacto direto na forma como as crianças aprendem a falar, ler e escrever.
Para desenvolver competências essenciais à leitura, como a consciência fonológica, a identificação de rimas ou a capacidade de reconhecer e manipular sons, as canções, as rimas e os jogos rítmicos podem ser aliados valiosos. Segundo a especialista, estas atividades ajudam a desenvolver a perceção auditiva, a discriminação dos sons da fala, a memorização de padrões e a organização de sequências.
Na prática clínica, a música é frequentemente utilizada como ferramenta terapêutica. “Na prática clínica da Terapia da Fala, a música é frequentemente utilizada como estratégia de intervenção, sobretudo em crianças com dificuldades ao nível da linguagem, da articulação, do processamento auditivo ou das aprendizagens escolares. A música permite trabalhar a linguagem de forma natural, motivadora e altamente eficaz”, revela Diana Moreira.
Mas não é preciso estar numa consulta para aproveitar estes benefícios. Cantar em família, bater palmas ao ritmo de uma música, repetir lengalengas ou simplesmente ouvir música em conjunto são formas simples de estimular o desenvolvimento comunicativo das crianças. Afinal, tal como a linguagem, também a música se desenvolve na relação com os outros.
A especialista defende que incentivar o contacto com a música desde cedo é uma forma de investir no desenvolvimento da comunicação, da aprendizagem e das competências cognitivas das crianças. E que, muitas vezes, tudo começa com algo tão simples quanto uma canção cantada em família.
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