O que ninguém te contou sobre o São João

É a noite mais longa do ano. É sardinhas, fogueiras, martelinhos e fogo de artifício sobre o Douro. É a festa que o Porto guarda como se fosse sua e de certa forma é. Mas por baixo de tudo o que já sabes sobre o São João existe uma história muito mais antiga, muito mais pagã e muito mais interessante do que aquela que aparece nas brochuras turísticas.

Aqui ficam as curiosidades que achamos que merecem ser contadas.

A origem do São João não está na Igreja. Está no solstício de verão, o dia com o maior número de horas de luz solar do ano, e nas festas pagãs que o celebravam como momento de adoração ao sol, de fertilidade, colheitas e abundância. Só mais tarde, à semelhança do que aconteceu com o Carnaval, a Igreja Católica cristianizou esta festa e atribuiu-lhe São João Batista como padroeiro.
O que festejamos hoje é, portanto, uma sobreposição de dois mundos: o pagão e o cristão, o profano e o sagrado, a sardinhas e a procissão.

São João não é o padroeiro do Porto
Toda a gente assume que é. Não é. A cidade foi mudando de padroeiro ao longo do tempo. Primeiro foi São Vicente, do século XII ao XVI, curiosamente o mesmo padroeiro de Lisboa. Depois São Pantaleão. A padroeira oficial da cidade, desde 1984, é Nossa Senhora da Vandoma, também conhecida por Nossa Senhora do Porto, igualmente presente no brasão da cidade.

O martelo foi inventado em 1963 por um industrial portuense
Os martelinhos foram inventados em 1963 por Manuel Boaventura, industrial do Porto. A ideia era criar mais um brinquedo para o negócio, mas nesse ano Manuel decidiu oferecer vários martelos azuis e brancos aos estudantes durante a semana da Queima das Fitas, em maio. A moda pegou e, passado um mês, os martelinhos já andavam nas ruas na noite de São João.
A inspiração terá vindo de um saleiro pimenteiro que Manuel Boaventura viu numa das suas viagens ao estrangeiro. Sessenta e três anos depois, o martelo é provavelmente o objecto mais fotografado do Porto numa noite de junho.

Antes dos martelos de plástico existia o alho-porro, e a escolha não era inocente.
O alho-porro era um símbolo fálico da fertilidade masculina, usado pelos homens para acertar nas cabeças dos indivíduos que passassem. As mulheres recorriam aos ramos de cidreira e de limonete, símbolo dos pelos púbicos femininos. A festa do solstício celebrava a fertilidade de forma muito direta e os objetos que as pessoas carregavam refletiam exatamente isso.
Um dos antigos costumes consistia ainda em adquirir um alho-porro que era depois colocado na parede principal da casa como amuleto de boa sorte, permanecendo lá durante todo o ano até ser substituído na festa seguinte.

Uma última coisa
O São João não é apenas uma festa. É uma das formas mais antigas e mais genuínas de uma cidade dizer que está viva, que celebra o verão, a fertilidade, a comunidade, a noite longa e o prazer simples de estar na rua com os outros.
Pré-cristão, cristão, republicano, estudantil, popular, o São João sobreviveu a tudo e absorveu um pouco de cada época. É isso que o torna tão difícil de explicar a quem nunca o viveu. E tão impossível de esquecer para quem já o viveu uma vez.


Boa noite de São João.

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