Ninguém te prepara mesmo para isto. Podes ler todos os livros, fazer todos os cursos de preparação para o parto, ouvir todas as histórias das amigas que já passaram por aqui. E ainda assim, quando tens aquele bebé nos braços pela primeira vez, há uma parte de ti que pensa, em pânico silencioso: e agora?
É que um filho não nasce sozinho. Nascem pais também. E esse nascimento é tão avassalador, tão físico, tão sem manual de instruções, que ninguém fala dele com a honestidade que merece.
O desespero do choro que não para
O bebé chora. Tu já fizeste tudo: deste leite, mudaste a fralda, embalaste, cantaste, ligaste o exaustor porque alguém disse que o barulho branco resulta. Nada. O bebé continua a chorar e tu começas a chorar também, às três da manhã, no corredor, com um ser humano minúsculo no colo que não te consegue dizer o que precisa e tu não consegues perceber. É um desespero diferente de tudo o que conhecias. Não tem solução imediata. Às vezes só tem duração.
A privação de sono que muda tudo
Ninguém que não tenha passado por isto percebe verdadeiramente o que é dormir em blocos de duas horas durante semanas a fio. Não é cansaço. É uma alteração do estado de consciência. Começas a perder memória de curto prazo, a chorar por razões que não consegues identificar, a ter pensamentos que nunca tinhas antes. A privação de sono crónica dos primeiros meses de parentalidade é uma das coisas mais duras e menos discutidas de todo o processo. E há uma crueldade particular no facto de precisares tanto de descanso precisamente quando menos consegues tê-lo.
A solidão de dois
Há casais que nunca se sentiram tão sozinhos como depois de terem um filho. De repente, a pessoa que está ao teu lado está tão esgotada quanto tu, com tanto medo quanto tu, e nenhum dos dois tem energia para cuidar do outro. As conversas passam a ser logísticas. O toque passa a ser funcional. E há uma tristeza subtil em perceber que a coisa mais bonita que fizeram juntos está, paradoxalmente, a pôr a relação em modo de sobrevivência.
A dúvida constante de estar a fazer tudo mal
Será que está a comer o suficiente? Devo deixá-lo chorar ou não? Estou a criar um vínculo seguro ou estou a estragar tudo? O pediatra disse uma coisa, a internet diz outra, a mãe diz uma terceira e tu estás no meio com um bebé que não leu nenhum desses livros e faz o que quer. O parentalidade moderna tem uma camada extra de ansiedade que as gerações anteriores não tinham: informação a mais, contradições a mais, e a pressão silenciosa de ser um pai ou uma mãe perfeito numa era em que tudo é observado e julgado.
O luto de quem eras antes
Este é o que menos se fala e talvez o que mais pesa. Antes do bebé havia uma vida. Uma forma de existir no mundo, de ocupar o tempo, de te reconheceres a ti própria. E de repente essa pessoa ficou suspensa algures, indefinidamente, enquanto te transformas noutra coisa que ainda não sabes muito bem o que é. Não é que não ames o teu filho. Amas de uma forma que não sabias que era possível. Mas pode coexistir com a saudade da liberdade, do sono, do teu corpo, da tua identidade anterior. Esse luto é real e é legítimo, e não te faz má pessoa nem má mãe.
O que ninguém diz mas toda a gente sente
Que há momentos em que é difícil. Que há dias em que não estás bem. Que pedir ajuda não é falhar. Que a depressão pós-parto não é só choro incontrolável, pode ser também entorpecimento, irritabilidade, distanciamento, a sensação de estar a assistir à tua própria vida de fora. E que afeta também os pais, não só as mães.
Os primeiros meses de parentalidade são simultaneamente os mais bonitos e os mais violentos da vida de muitas pessoas. E há algo muito importante em poder dizer isso em voz alta, sem culpa e sem dramatismo.
Estás a fazer muito melhor do que pensas. E o facto de te preocupares tanto com isso já diz tudo sobre o tipo de pai ou mãe que és.
#GlitterUpYourLife