Quando era criança, era a típica maria-rapaz. Filha única, com uma mãe extremamente feminina — seja lá isso o que isso quer dizer — e mesmo assim as minhas grandes referências eram sempre as personagens mais arrojadas: a Kim Possible, a Esmeralda d’O Corcunda de Notre-Dame, as Amazonas, as alternativas. As que existiam nos seus próprios termos.
Com uma pequena exceção, claro: os filmes da Barbie. Esses conseguiram a proeza de me tornar completamente apaixonada pelo cor-de-rosa — tenho a certeza que sabem exatamente do que estou a falar.
Mas fora desse universo, o rosa era quase sempre sinónimo de uma feminilidade que eu não queria representar. Era a cor da mulher snobe, da que se preocupa mais com a imagem do que com qualquer outra coisa. E portanto, concluí, eu nunca poderia gostar de rosa — senão estaria a sinalizar para o mundo exatamente aquilo que não era.
Foi assim que eu, e milhões de outras raparigas, escondemos o amor por aquela que é, sejamos honestas, a cor mais divina do mundo.
O curioso é que nunca escondi completamente. Sempre disse que o rosa era a minha cor favorita. Mas a reação era sempre a mesma:
«Tu?? Rosa?? Mas tu só vestes preto…»
Pois. Verdade. Porque no meu imaginário — completamente moldado por preconceitos que nos foram passados sem aviso nem pedido de desculpa — roupa preta ou escura significava parecer mais forte, mais inteligente, mais sóbria. Era isso que eu queria transmitir.
Até que, com o tempo, fui percebendo esses padrões. E fui deixando o rosa entrar aos poucos: num acessório, num fato de Carnaval, num frasco de perfume. Pequenas concessões a uma cor que, no fundo, nunca deixou de ser minha.
O rosa sempre foi meu. Só demorei um bocado a assumi-lo.
Artigo Por Bruna Coelho Pereira
#GlitterUpYourLife