O que mais e menos gostamos da 13ª edição do Primavera Sound Porto

Todos os anos saímos do Primavera Sound Porto com a mesma sensação: foi perfeito. E todos os anos saímos também com a mesma queixa: porque é que isto só acontece uma vez por ano? Mas já lá vamos.

O Primavera Sound continua a ser aquele raro festival que consegue agradar ao amigo que só ouve indie, à amiga que vive para eletrónica, ao colega que só vai pelos cabeças de cartaz e à pessoa que compra bilhete sem sequer olhar para o alinhamento. Aqui já está a justificação porque é um festival onde se sente liberdade, já que consegue, sem grandes explicações, celebrar a individualidade.

Comecemos por aquilo que mais gostamos: as surpresas. Sim, adorámos os nomes que enchem o cartaz. Sim, cantámos, dançámos e emocionámo-nos. Mas uma das maiores riquezas do Primavera continua a acontecer longe dos concertos que assinalámos meses antes no calendário. Acontece quando vamos até à zona da restauração e perdemos a fome porque ouvimos qualquer coisa no palco Estrella Damm que nos puxa, qual íman, e cinco minutos “só para ver o que é isto” passam a quarenta minutos depois a lembrarmo-nos que afinal ainda não jantamos.

Foi assim com vários artistas que chegaram completamente fora do nosso radar e saíram diretamente para as nossas playlists. E esse continua a ser um dos maiores superpoderes do Primavera: fazer-nos descobrir música nova quando já achávamos que sabíamos exatamente do que gostávamos.

Depois há o cenário. É Primavera, mas este ano as temperaturas decidiram que era Verão. O Parque da Cidade estava no seu melhor: verde, vivo, luminoso, quente. E aqui, é impossível ignorar o cuidado com que tudo está integrado neste espaço sagrado da Invicta. Não há a sensação de invasão. Há convivência. O mesmo acontece com as marcas: sim, estão lá e ainda bem. Mas não estão em todo o lado. Não gritam por atenção a cada metro quadrado. Existe um equilíbrio raro entre ativações, experiências e o próprio festival e claro, a natureza. As marcas coexistem com a música, não competem com ela.

Gostámos particularmente da nova área social do Base, um daqueles espaços que rapidamente se transformam em ponto de encontro oficial para quem perdeu os amigos, para quem os encontrou ou para quem simplesmente precisava de descansar cinco minutos antes do próximo concerto.

Falando em coisas que merecem uma salva de palmas coletiva: as pessoas que andavam pelo recinto a oferecer água. Não a vender, a oferecer! Parece um detalhe mas não é, de todo. Foi provavelmente um dos gestos mais simples e mais inteligentes que vimos nos últimos anos em contexto de festival. E já que falamos de pessoas, falemos das pessoas. Não há festival sem público e o público do Primavera continua a ser um dos seus maiores ativos. Há quem passe meses a preparar os looks, há quem apareça vestido exatamente da mesma forma que iria para um almoço de domingo ou para um dia normal de trabalho. E ninguém parece importar-se. Não há pressão, competição ou necessidade de provar nada a ninguém. Há espaço para todos. No fundo, um pequeno retrato da sociedade que gostaríamos de encontrar, tanto online como offline. O mais bonito é que o festival consegue juntar pessoas completamente diferentes e fazê-las coexistir naturalmente. Gente de várias idades, estilos, nacionalidades e tribos musicais. Todos ali pela mesma razão. E aqui, acontece aquele fenómeno inexplicável: estamos num recinto enorme, com milhares de pessoas, e acabamos sempre por encontrar amigos que não vemos há meses. Às vezes há anos. Encontramo-nos junto a um palco, numa fila para uma bebida, no meio da multidão ou por puro acaso. O Primavera consegue verdadeiramente representar gostos diferentes. Pessoas que seguem caminhos diferentes ao longo do ano mas acabam inevitavelmente por convergir naquele mesmo lugar durante quatro dias. É uma espécie de reunião de família para pessoas que não são família.

Também gostámos do facto de a arte continuar a ter espaço para dizer alguma coisa. Num mundo cada vez mais barulhento, foi reconfortante ver uma mensagem simples como “No War” integrada naturalmente no recinto. Sem espetáculo. Sem excesso. Apenas presente. Assim como o concerto dos Massive Attack, que mais do que um concerto, um lembrete de que a música também pode ser intervenção, reflexão e consciência. Um daqueles momentos que nos fazem lembrar que alguns artistas continuam a usar os palcos para muito mais do que entretenimento. The xx entregaram exatamente aquilo que fazem melhor: beleza, elegância e intensidade sem excessos. Os Gorillaz provaram, mais uma vez, porque continuam a ser um dos projetos mais criativos e fascinantes da música contemporânea. Mas a verdade é que o Primavera nunca se resume aos nomes que aparecem maiores no cartaz.

E aquilo de que menos gostámos?

Bem. Só há uma resposta possível. Que seja apenas uma vez por ano. Será esse o preço das coisas especiais? É, de certeza. Também não há Natal todas as semanas. E ainda bem. Caso contrário deixava de ser mágico.

Até para o ano, Primavera. Já temos saudades.

#TheGlitterDream