15 de junho: o dia em que precisamos de olhar para quem mais gostamos de ignorar

Há uma violência que acontece em silêncio, dentro de casas, entre pessoas que se conhecem há décadas, muitas vezes entre pais e filhos. Não aparece nos noticiários com a mesma frequência que outros crimes. Não tem o mesmo peso político. E é exatamente por isso que o Dia Mundial de Consciencialização da Violência Contra a Pessoa Idosa, assinalado a 15 de junho, existe.

O que dizem os números em Portugal

Os dados são difíceis de ignorar. Os crimes contra pessoas idosas aumentaram 26,4% em apenas quatro anos, segundo a Direção-Geral da Política de Justiça. Em paralelo, a APAV apoiou mais de 6.500 idosos, a maioria mulheres, entre 2021 e 2024, uma média de cinco pessoas por dia.

Os crimes não se ficam pela violência física. A violência pode assumir diferentes formas: psicológica, física, sexual, financeira, negligência ou abandono. Passa também por comportamentos muitas vezes não considerados violentos, mas que retiram às pessoas idosas poder de decisão, autonomia, liberdade e dignidade.

Um dado que diz muito sobre a dimensão do problema: 48% das vítimas não apresentaram queixa. Metade. Em silêncio, dentro de casa, muitas vezes protegendo precisamente quem as maltrata.

Quem agride e onde acontece

A maioria dos agressores são homens, dos quais quase um terço têm entre 18 e 64 anos e são filhos da vítima. A violência acontece, na maior parte das vezes, no espaço doméstico, por alguém de confiança. As situações com duração entre dois e seis anos representaram 23,6% dos casos, e a violência na residência comum 51,2%. Não é um crime de estranhos. É, com assustadora frequência, um crime de família.

O que podemos fazer

Reconhecer os sinais é o primeiro passo: isolamento, mudanças de comportamento, sinais físicos inexplicados, medo de falar na presença de certos familiares, deterioração repentina das condições de vida. Qualquer pessoa pode denunciar situações suspeitas através da linha da APAV (116 006, gratuita) ou das autoridades.

Mas há também algo mais difícil de legislar: a forma como a sociedade trata as pessoas mais velhas. A invisibilidade a que as votamos, a impaciência com que as tratamos, a facilidade com que as afastamos das decisões que lhes dizem respeito. A violência mais grave começa muitas vezes muito antes de levantar a voz ou a mão. Começa quando deixamos de ver uma pessoa e passamos a ver apenas um problema.

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