Há bandas que dão concertos. Há bandas que criam atmosferas. E depois há os The XX, que fazem algo ainda mais raro: suspendem a gravidade.
Esta sexta-feira, no Primavera Sound Porto, o trio londrino voltou a provar que continua a dominar uma arte que poucos sequer tentam praticar. Durante cerca de uma hora e meia, o Parque da Cidade deixou de ser um espaço terreno para se tornar num espaço sideral. Não por causa de efeitos especiais, lasers futuristas ou fogo de artifício, pelo contrário. Com uma economia de gestos quase absurda e uma elegância minimalista que continua a ser a sua assinatura, Romy, Oliver Sim e Jamie XX levaram milhares de pessoas para um estado de levitação coletiva difícil de explicar a quem nunca os viu ao vivo.
Formados em Londres no final dos anos 2000, os The XX apareceram como uma anomalia. Enquanto o indie procurava volume, eles encontraram força no silêncio. Enquanto se enchiam canções de camadas, eles descobriram o poder do espaço vazio. O álbum de estreia, XX (2009), tornou-se rapidamente um clássico moderno. Seguiram-se Coexist (2012) e I See You (2017), três discos suficientes para garantir um lugar permanente na história da música alternativa do século XXI.
Passaram quase dez anos desde o último álbum da banda. Pelo meio, cada elemento explorou o seu próprio universo criativo. Jamie XX consolidou-se como um dos produtores mais influentes da música eletrónica contemporânea. Romy lançou-se numa carreira a solo luminosa, emotiva e profundamente dançável. Oliver Sim entregou um dos discos mais elegantes e vulneráveis dos últimos anos. Mas ontem ficou claro aquilo que os fãs sempre souberam: separados são excelentes; juntos são magnéticos.
A sintonia entre Oliver e Romy continua a ser um dos fenómenos mais fascinantes da música moderna. A voz grave, profunda e quase fantasmagórica de Oliver encontra na doçura cristalina de Romy um contraponto perfeito. Não parecem duas vozes. Parecem dois lados da mesma conversa.
Os solos de baixo de Oliver continuam a surgir como pequenos relâmpagos emocionais. Nunca excessivos, nunca exibicionistas. Já Romy mantém uma capacidade rara de fazer uma guitarra soar simultaneamente delicada e devastadora. Quando assume protagonismo, fá-lo com uma naturalidade desarmante, como quem não quer roubar a atenção mas acaba inevitavelmente por capturá-la.
E depois, o Jamie. A figura mais silenciosa do palco é talvez a que mais fala. Sem microfone. Sem discursos. Sem monólogos entre músicas. Jamie XX comunica através das mãos, dos pads, dos beats. Daquele MPC que parece uma extensão do próprio corpo. Enquanto Romy e Oliver contam histórias, Jamie constrói o espaço onde essas histórias acontecem. É um arquiteto sonoro. Um realizador invisível. Uma presença icónica que raramente precisa de palavras porque toda a gente conhece a linguagem que ele fala.
Uma das grandes virtudes deste regresso dos The XX tem sido precisamente a forma generosa como incorporam os percursos a solo de cada membro. Ontem houve espaço para momentos retirados dos universos individuais de Romy, Oliver e Jamie, não como interrupções do concerto, mas como capítulos naturais da narrativa da banda. Em vez de parecer um conjunto de egos a dividir tempo de palco, pareceu uma celebração daquilo que cada um descobriu quando esteve longe dos outros.
E talvez isso explique um dos momentos mais bonitos da noite: quando a banda agradeceu à sua tour manager e lhe cantou os parabéns. Um gesto pequeno, quase banal, mas revelador. Porque os The XX sempre pareceram pessoas incrivelmente cool e ontem ficou a sensação de que provavelmente são mesmo pessoas incrivelmente cool. E que, mais importante ainda, gostam genuinamente de estar juntos. Além da tour manager, Romy fez questão de pedir ao público que cantasse os parabéns ao Oliver mostrando-nos que os amigos podem mesmo ser para sempre, mesmo aqueles que fizemos no jardim de infância.
Num mundo onde tantas reuniões de bandas históricas parecem acordos comerciais cuidadosamente negociados, os The XX continuam a transmitir algo raro, não só mas também com as suas músicas: afeto.
A setlist percorreu vários momentos da carreira da banda, equilibrando clássicos incontornáveis com novas leituras do seu universo sonoro. Entre os temas apresentados estiveram: Crystalised, Say Something Loving, Islands, Angels, Fiction, I’ll Take Care of U, tributo a Gil Scott-Heron, Shelter, Night Time, Sunset, uma versão deliciosa da VCR em acústico, On Hold, Infinity, Loud Places, Enjoy your Life, GMT, Wanna Trear Each Other Right, Dare You, terminando com a assinatura da banda, Intro.
Exato. Acabaram com o que devia ser a “Intro”. O maior sucesso da banda, é uma melodia que não tem letra, refrão ou verso mas mostra-nos que todos os momentos são bons para começar. ou recomeçar. Até mesmo os “fins”. E esta é para mim, a grande magia desta banda. O simples, que é tão profundo e tão aberto às interpretações subjetivas de cada um.
Mas voltando à Intro, dizer que é apenas uma melodia seria profundamente injusto. É as 4 estações de Vivaldi dos tempo modernos.
Neste caso só a Primavera, mas que vale por todas as outras já que neste concerto sentimos um calor inexplicável de verão, um inverno frio quando percebemos que o concerto ia terminar e as cores mágicas do outono pairaram no ar, na aura das milhares de pessoas que abandonaram lentamente o recinto, depois do concerto.
Quando a última nota de Intro ecoou, o Parque da Cidade voltou a ser apenas o Parque da Cidade. Mas durante algum tempo – uma hora e meia, talvez duas – foi outra coisa qualquer. Foi um lugar entre a Terra e as estrelas. E ninguém parecia ter grande vontade de regressar.
Obrigada, The XX e Primavera Sound Porto. Voltem sempre.
*A fotografia é da Agência Lusa.
#TheGlitterDream