Há um género cinematográfico que nunca sai de moda. O biopic musical, esse híbrido entre drama e concerto, entre história e lenda, entre o que foi e o que gostaríamos que tivesse sido, continua a encher salas, a ganhar Óscares e a fazer-nos revisitar discografias a velocidade recorde.
Porque a vida dos grandes músicos tem, quase sempre, todos os ingredientes de um bom filme: ascensão e queda, talento e autodestruição, amor e solidão, palcos que iluminam e bastidores que destroem. E quando o cinema consegue capturar tudo isso sem trair a música, aí acontece algo especial.
Este é o nosso guia para os biopics musicais que valem mesmo a pena.
Os clássicos que definiram o género
Walk the Line (2005) — Johnny Cash
James Mangold contou a história de Johnny Cash com uma crueza que ainda hoje impressiona. Joaquin Phoenix entregou uma das melhores interpretações da sua carreira, mas foi Reese Witherspoon, no papel de June Carter Cash, quem levou o Óscar e merecia cada segundo dele. O filme não romantiza os vícios nem simplifica a redenção. É seco, bonito e verdadeiro como uma balada country às três da manhã.
Ray (2004) — Ray Charles
Jamie Foxx transformou-se completamente em Ray Charles numa atuação que lhe valeu o Óscar de Melhor Ator. O filme percorre a infância difícil no sul dos Estados Unidos, a cegueira, a genialidade musical, a dependência da heroína e a reinvenção constante de um homem que inventou o soul moderno. Uma das referências absolutas do género.
Os grandes da era moderna
Bohemian Rhapsody (2018) — Queen / Freddie Mercury
Imperfeito como biografia, extraordinário como experiência. O filme foi alvo de críticas por suavizar partes da vida de Freddie Mercury, mas quando chega ao concerto do Live Aid de 1985, recriado minuto a minuto com uma precisão que arrepia, todos os defeitos são perdoados. Rami Malek ganhou o Óscar e fez o impossível: deu corpo a alguém completamente inimitável.
Rocketman (2019) — Elton John
A grande surpresa do biopic musical moderno. Em vez de fingir que é um documentário, Rocketman assume-se como fantasia musical, as canções irrompem como se fossemos um musicais, os momentos mais sombrios ganham dimensão quase surrealista. Taron Egerton canta tudo ao vivo e entrega uma performance que deveria ter ganho o Óscar. A honestidade sobre os vícios, a sexualidade e a solidão de Elton John é rara neste género.
Elvis (2022) — Elvis Presley
Baz Luhrmann pegou na vida de Elvis Presley e fez o que Baz Luhrmann faz: tudo ao mesmo tempo, muito barulho, velocidade de vértigo, cor em excesso e de alguma forma funciona. Austin Butler desapareceu completamente dentro de Elvis (literalmente continuou a falar com o sotaque dele meses depois das filmagens). Tom Hanks como o Coronel Parker é fascinante. O filme é excessivo, kitsch e impossível de largar.
Tina (2021) — Tina Turner (documentário)
Tecnicamente é um documentário, mas merece estar nesta lista porque é, provavelmente, o retrato mais honesto já feito de um músico. Com Tina Turner a falar na primeira pessoa sobre os anos de abuso com Ike Turner, a reconstrução da carreira, o medo de subir ao palco, a resiliência absoluta, é devastador e inspirador em simultâneo. Prepara os lenços.
O mais recente e um dos melhores
A Complete Unknown (2024) — Bob Dylan
O filme passa-se na influente cena musical de Nova Iorque do início dos anos 60 e conta a ascensão meteórica de Bob Dylan, um cantor folk de 19 anos do Minnesota, até às grandes salas de concerto. Timothée Chalamet transformou-se em Dylan de forma orgânica e aparentemente sem esforço, cantando e tocando ao vivo em todas as cenas, numa performance que lhe valeu uma nomeação ao Óscar. James Mangold, o mesmo realizador de Walk the Line, acompanha a controversa mudança de Dylan para a guitarra elétrica. Monica Barbaro como Joan Baez é uma revelação. Um dos melhores filmes do género dos últimos anos.
Para ver a seguir: o que aí vem
Em 2025 chegou Springsteen: Deliver Me From Nowhere, com Jeremy Allen White no papel de Bruce Springsteen. Em 2026, Jaafar Jackson interpreta o seu tio Michael Jackson no biopic Michael. E está em desenvolvimento um filme com Zendaya como Ronnie Spector. O biopic musical não mostra sinais de abrandamento e nós não nos queixamos.
#glitterupyourlife