Perder uma gravidez: o luto que ninguém sabe como nomear

Há perdas que o mundo não sabe muito bem como tratar. O aborto espontâneo é uma delas. Acontece, muitas vezes, em silêncio. A barriga ainda não se via. Ninguém sabia, ou quase ninguém. E de repente há um luto enorme para carregar, sem funeral, sem licença social para chorar, sem que as pessoas à volta percebam muito bem o tamanho do buraco que ficou.

Este artigo é para quem passou por isso. Ou para quem quer perceber melhor o que é que alguém próximo está a viver.

O que é o luto gestacional

As perdas vivenciadas durante a gestação são experiências complexas, marcadamente singulares na sua vivência e ativadoras de processos de luto, muitas vezes encobertos e incompreendidos. A intensidade do sofrimento não percorre um caminho linear consoante o tempo de gestação. Trata-se de uma dor profundamente individual, que espelha o abalar de um vínculo a um bebé nascido, muitas vezes, antes da própria gravidez, no imaginário dos seus pais.

Ou seja: não é preciso ter perdido uma gravidez de vinte semanas para que a dor seja real e legítima. O bebé que se perde com seis semanas também tinha nome imaginado, quarto pensado, futuro antecipado. A perda gestacional implica também a perda de expectativas não correspondidas, de uma etapa de vida e de uma identidade como pai ou mãe que já estava a ser construída.

O que se sente, e porque é normal sentir tudo ao mesmo tempo

Quando um casal enfrenta um aborto espontâneo, é comum que ambos os parceiros experimentem uma variedade de emoções complexas: tristeza profunda, descrença, choque, culpa, raiva, medo do futuro. A estes junta-se muitas vezes o isolamento, a sensação de que ninguém entende a dimensão do que aconteceu, ou a pressão silenciosa para “seguir em frente” mais depressa do que seria justo.

A culpa é uma das emoções mais comuns e também das mais injustas. A maior parte dos abortos espontâneos tem causas genéticas ou relacionadas com o desenvolvimento do embrião, completamente fora do controlo de quem os vive. Parar de reviver todos os momentos da gravidez à procura de algo que se fez de errado é essencial, porque na maioria das vezes esta situação estava fora do controlo de quem a viveu.

Não há um prazo para sarar. Não há uma forma certa de viver este luto. Há pessoas que precisam de falar muito, e pessoas que precisam de silêncio. Ambas estão certas.

Os direitos laborais em Portugal: o que mudou

Portugal tem vindo a reconhecer, ainda que com alguma lentidão, a necessidade de proteger quem passa por uma perda gestacional.

Após o diagnóstico de uma gravidez não evolutiva ou aborto, a trabalhadora tem direito a uma baixa que pode variar entre 14 a 30 dias, de acordo com a avaliação médica, emitida através de um certificado de incapacidade temporária para o trabalho. Tem ainda direito a um subsídio de interrupção da gravidez, que deve ser requerido na Segurança Social através de formulário próprio, acompanhado por uma declaração médica. Esta baixa é paga a 100%.

Em 2023 foi introduzido no Código do Trabalho o direito ao luto gestacional: até três dias consecutivos de faltas justificadas, pagas integralmente pela entidade patronal e sem impacto nos direitos laborais, para situações de perdas gestacionais precoces não abrangidas por baixa médica. A prova exigida é uma simples declaração do hospital ou centro de saúde, sem necessidade de baixa médica.

Em 2025, o governo propôs revogar este artigo, argumentando que a licença por interrupção da gravidez de 14 a 30 dias já abrange todas as situações. O Ministério do Trabalho garantiu que a licença por interrupção da gravidez se aplica a todos os casos de perda gestacional, incluindo o aborto espontâneo, sejam voluntários ou involuntários, independentemente da fase da gravidez. O debate sobre esta matéria continua em aberto.

E o pai? Também tem direito aos três dias de luto gestacional previstos no artigo que está em discussão, o que representa um reconhecimento importante de que esta perda não é só da mãe.

Como cuidar de ti (e do outro)

Algumas coisas que podem ajudar, sem substituir apoio profissional quando necessário:

Deixa-te sentir o que sentes, sem filtros e sem prazo. Fala com o teu companheiro ou companheira, porque esta perda é de ambos, mesmo que se manifeste de formas diferentes. Procura pessoas que já passaram pelo mesmo: grupos de apoio de pais que viveram a mesma experiência podem proporcionar conexão, compreensão mútua e apoio emocional muito difícil de encontrar noutros contextos. E se a dor não se mover, se o dia a dia ficar impossível, pede ajuda a um psicólogo. Não é fraqueza. É precisamente o oposto.

Para apoio, podes contactar o teu médico de família, a Linha Saúde 24 (808 24 24 24), ou procurar psicólogos especializados em luto perinatal.

Uma perda gestacional é um adeus. Um sonho interrompido quando ainda estava a ganhar forma. Uma despedida de um amor que já existia, mesmo antes de ter um rosto, um nome ou um primeiro choro. E como qualquer amor real, merece ser lamentado com toda a seriedade que lhe é devida.

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