A minha infância sabe a pão com manteiga depois da escola. A cereais com demasiado açúcar aos sábados de manhã. A gelados derretidos demasiado depressa no verão. A pastilhas Gorila escondidas no bolso. A arroz de tomate da minha avó. A batatas fritas comidas no chão da sala enquanto via desenhos animados sem pensar nas horas.
Mas a verdade é que a infância nunca sabe apenas a comida. Sabe também a coisas difíceis de explicar.
A lençóis acabados de lavar. A protetor solar. A relva molhada nas pernas. A tardes intermináveis de verão onde o tempo parecia existir de outra forma. A andar de bicicleta sem destino. A brincar na rua até ouvir alguém chamar da janela.
O mais estranho da vida adulta é perceber que passamos metade do tempo a tentar crescer e a outra metade a tentar voltar àquilo que éramos antes.
Nos últimos anos ouvimos falar muito da ideia de “criança interior”. Durante muito tempo achei que era apenas mais um daqueles conceitos bonitos da internet. Mas depois comecei a perceber pequenos sinais.
A felicidade absurda de entrar numa papelaria. O conforto quase emocional de ver filmes de animação antigos. A vontade inexplicável de comprar plasticina, legos ou jogos que já nem sei usar bem. O prazer de comer certos cereais diretamente da caixa às onze da noite. A forma como ainda hoje me sinto instantaneamente mais leve quando entro numa livraria infantil.
Crescer também é perceber que aquilo que nos fazia felizes continua, no fundo, a fazer-nos felizes. Só que agora temos vergonha de admitir.
Existe quase uma pressão silenciosa para sermos adultos funcionais o tempo inteiro. Produtivos. Resolvidos. Organizados emocionalmente. Como se maturidade significasse abandonar completamente a leveza. Porém, acho que as pessoas mais felizes são precisamente aquelas que não perderam totalmente acesso à sua infância.
As que ainda conseguem dançar sem motivo. Fazer desenhos feios. Comer gelado demasiado depressa. Entrar no mar sem pensar na temperatura. Fazer pulseiras de missangas. Ver o céu pela janela do carro. Rir sem tentar controlar o volume.
Claro que a infância também traz coisas difíceis. À medida que crescemos, começamos inevitavelmente a revisitar memórias de forma diferente. Há momentos felizes que ganham ainda mais valor com o tempo. E há feridas que só percebemos verdadeiramente já adultos. Acho que faz parte. Mas talvez exista também qualquer coisa de bonito em aprender a olhar para a nossa criança interior com mais gentileza do que muitos adultos tiveram connosco na altura.
Perceber que aquela criança estava só a tentar existir da melhor forma possível. Mesmo quando sentia medo. Mesmo quando não entendia tudo. Mesmo quando cresceu demasiado depressa.
É provavelmente por isso que certas coisas continuam a emocionar-nos sem explicação lógica. O cheiro a verão. O som de desenhos animados antigos. A primeira dentada num gelado igual ao da infância. Uma música que já não ouvíamos há anos. Andar descalço em casa dos pais. Dormir depois do almoço sem culpa.
Porque no fundo, a infância nunca desaparece completamente. Fica escondida em pequenos detalhes da vida adulta, à espera daqueles raros momentos em que finalmente abrandamos o suficiente para a ouvir outra vez.
#glitterupyourlife