Houve uma altura da minha vida em que eu achava sinceramente que a rotina era o princípio do fim. Aquela coisa cinzenta reservada aos adultos “sem graça”, pessoas que iam dormir cedo, tinham caixas organizadoras para tudo e diziam frases como: “Não posso, amanhã acordo cedo.”
Hoje sou essa pessoa. E, pior, adoro. Casada, com filhos, roupa para lavar em modo infinito e um calendário familiar que parece um Tetris emocional, percebi que fugir à rotina é praticamente impossível. Nem vale a pena sofrer com isso, vai acontecer. E ainda bem. Porque no meio do caos dos dias iguais existe qualquer coisa de profundamente bonita: a segurança de saber onde pertencemos.
Percebi rapidamente que esta coisa chamada rotina/dia-a-dia não tem de ser um bicho assustador se colocarmos a nossa intenção no sítio certo.
Os meus dias começam quase sempre da mesma maneira. Um despertador demasiado cedo, crianças que acordam com perguntas existenciais às sete da manhã, lancheiras, pequenos-almoços, cabelos para pentear, mochilas esquecidas em cima da mesa mesmo depois de eu ter perguntado três vezes se já tinham tudo.
Depois vem o trabalho, o ginásio, as compras de última hora, atividades extra curriculares e aquela habilidade adquirida por todas as mães de responder a mensagens, marcar consultas e descongelar peixe ao mesmo tempo.
A certa altura do dia volto a apanhar a criançada na escola e começa oficialmente o segundo turno. E é aqui que a casa entra naquele estado que só quem tem filhos conhece: um misto de ternura e apocalipse.
Há banhos. Há gritos. Há alguém que não quer sopa. Há discussões pela cor do prato e pelo lugar marcado na mesa. Há trabalhos de casa para fazer e brinquedos espalhados pela sala como se tivesse passado um pequeno tornado.
E no entanto… há também gargalhadas. Conversas improváveis. Abraços pegajosos. Histórias lidas à noite já com os olhos a fechar. Pequenas rotinas que, sem darmos conta, se tornam memórias gigantes.
Depois de tudo isto, quando finalmente a casa se cala, aquele silêncio quase místico que acontece quando as crianças adormecem, sento-me no sofá. Às vezes vejo uma série. Outras vezes leio duas páginas de um livro antes de adormecer com os óculos postos. E tenho, talvez, dez minutos para respirar.
Durante muitos anos achei que felicidade era viver constantemente em movimento. Jantares a meio da semana, noites longas, fins de semana sem planos, dizer “sim” a tudo. Dormir pouco parecia-me um traço de personalidade. Como se descansar fosse coisa para pessoas sem entusiasmo pela vida.
Agora basta uma saída à terça-feira para eu precisar de recuperação física e emocional até sexta (herança dos 40 ou apenas saber onde quero estar?). E honestamente? Já nem tento lutar contra isso. Há uma alegria adulta muito específica em vestir um pijama lavado às nove da noite. E poucas coisas me sabem tão bem como deitar-me cedo sabendo que a cozinha ficou arrumada.
Quem eu era aos 25 anos acharia isto deprimente. Quem eu sou hoje chama-lhe paz. E talvez crescer seja precisamente isto: a rotina, que antes me parecia prisão, tornou-se abrigo.
Os rituais do dia-a-dia passaram a ser pequenos pontos de equilíbrio no meio de um mundo tão acelerado. O café da manhã bebido devagar. O caminho para a escola. O beijo automático antes de sair de casa. O filme visto no sofá ao sábado à noite enquanto toda a gente adormece a meio. Há amor nas repetições.
Claro que há dias em que me apetece largar tudo e ir sozinha para um hotel silencioso onde ninguém me pergunte onde estão as meias. Há dias em que sinto saudades da espontaneidade, da leveza dos vinte anos, da energia absurda que tínhamos para tudo.
Mas depois vem este ritmo meloso e doce e tudo fica bem!
Artigo Por Tatiana Figueiredo (Já agora, tenho 43!)
#GlitterUpYourLife