Menstruar é um processo biológico natural. E ainda assim, em 2026, há mulheres e raparigas que faltam à escola, evitam sair de casa e vivem em silêncio constrangedor por não terem acesso a produtos de higiene menstrual. Chama-se a isso pobreza menstrual, e é muito mais próxima de nós do que gostaríamos de admitir. Hoje celebra-se o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, um dia criado para que nunca nos esqueçamos de que ela (ainda) não está ao alcance de todos.
A dignidade menstrual é o conceito que engloba tudo o que devia ser garantido a quem menstrua: acesso a produtos adequados, a instalações sanitárias dignas, a informação clara, e a uma cultura que trate a menstruação como o que é, algo normal, sem vergonha nem tabu. Segundo a UNICEF, 62% das pessoas que menstruam já deixaram de ir à escola ou a algum lugar de que gostavam por causa da menstruação, e 73% sentiram vergonha nesses ambientes. São números que pedem ação.
O que está a mudar em Portugal
Portugal tem dado passos concretos, ainda que lentos. No ano letivo 2024/2025, o governo desenvolveu uma medida que assegura a distribuição gratuita de produtos de recolha menstrual em centros de saúde e nas escolas, com início previsto para janeiro, em três entregas mensais. É um começo, mas está longe de chegar a todas.
A nível local, há municípios a liderar pelo exemplo. Tavira tem em vigor desde 2023 o projeto Fora do Lixo!, que já distribuiu mais de 600 eco-kits menstruais e levou sessões de sensibilização a escolas e à comunidade, incluindo beneficiárias do Rendimento Social de Inserção.
Vânia Beliz e a missão além-fronteiras
Há nomes que, quando se fala de dignidade menstrual em Portugal, aparecem sempre. Vânia Beliz é um deles. Psicóloga clínica, mestre em Sexologia e doutorada em Estudos da Criança na especialidade de Saúde Infantil pela Universidade do Minho, o seu trabalho vai muito além do consultório.
Ao longo de vários anos de trabalho em educação sexual, Vânia percebeu que existiam grandes barreiras à abordagem da puberdade nas meninas, e que em países como a Guiné-Bissau e São Tomé a ausência de saneamento e de produtos de higiene adequados dificultava a experiência do ciclo menstrual, afastando raparigas da escola e diminuindo os seus contactos sociais. Lux
Foi a partir dessa constatação que nasceu o projeto Adolescer: um kit pensado para as meninas trazerem na mochila para quando lhes aparecer o período, composto por pensos, tampões, lenços de papel, chá de camomila e um panfleto informativo, comercializado de forma a financiar kits de dignidade menstrual para a Guiné e São Tomé. Vânia integra também o projeto Mina Muala Nón, com o objetivo de prevenir a pobreza menstrual em São Tomé e Príncipe.
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