Você acorda e a primeira coisa que faz é checar o app de sono. Sete horas e quarenta e dois minutos. Sono profundo: 68%. Eficiência: razoável. Você franze a testa e compara que ontem estava em 72%.
No café da manhã, você conta as proteínas – 25g e já pensa que faltam 5g para bater a meta. Adiciona mais clara de ovo. Bebe água. 1500ml até meio-dia, senão o app vibra lembrando que você está atrasada.
Na academia, você confere os passos. Oito mil. Faltam dois mil para o objetivo diário. Depois vem o skincare — aquele produto que está viralizado, que tem que passar na ordem certa porque se inverter perde a eficácia. Sem esquecer também da sua meditação e da sua rotina matinal, a leitura, e o podcast de desenvolvimento pessoal.
Você chega no fim do dia exausta. E por muitas vezes não foi só do trabalho. É uma exaustão de otimizar absolutamente tudo, e muitas vezes não dar conta da maior parte. E aí com isso, a otimização vira frustração e uma sensação de incapacidade de não conseguir cumprir com coisas que você estipulou que seriam boas para você de alguma forma.
Tem uma coisa estranha acontecendo. A gente achou que otimizar a vida ao máximo com tanta obsessão seria o recurso de bem-estar, mas que na verdade se tornou uma fonte de estresse. O que era pra relaxar virou performance. O que era pra cuidar virou cobrança. E no meio de tanta medição, tracking, routine perfecting e biohacking, a gente esqueceu de uma coisa muito simples: viver.
Quando foi que parar e desacelerar virou um problema? Quando foi que sentir prazer sem medir resultado virou desperdício de tempo? Quando foi que a gente parou de confiar no corpo e passou a acreditar mais nos números do relógio inteligente?
Eu atendi uma cliente que tinha dezessete apps de produtividade e bem-estar no celular. Dezessete. App de água, app de ciclo menstrual, app de calorias, app de passos, app de respiração, app de mindfulness, app de escrita intuitiva, app de hábitos, app de sono. Ela me disse, cansada: “Eu passo mais tempo alimentando esses apps do que me alimentando de verdade.”
E não é só ela. A gente virou refém da otimização. Skincare de doze passos porque se fizer menos não funciona. Rotina matinal de uma hora e meia porque produtividade é sagrada. Treino todos os dias porque descanso é preguiça disfarçada. E se você ousou comer um doce sem estar no dia do lixo, já vem a culpa, o ajuste, a compensação.
A gente otimizou tanto que esqueceu do óbvio: o corpo não é uma máquina. E a vida não é um projeto de eficiência o tempo todo.
Tem momentos em que você precisa dormir mais tarde porque ficou conversando com alguém que ama. Tem dias em que você vai comer aquela sobremesa, sem contar macro, só porque está deliciosa e está tudo bem. Tem manhãs em que você vai acordar e não vai fazer absolutamente nada — e isso não é falha, é parte do processo.
Mas a gente tem medo. Medo de que se parar de medir, de controlar, de otimizar, tudo vai desmoronar. Que vamos engordar, perder produtividade, ficar pra trás. A gente foi condicionada a acreditar que relaxar é perigoso. Que prazer sem propósito é perda de tempo. Que se não estivermos sempre melhorando, estamos fracassando.
E se não for nada disso?
E se parar de otimizar ao máximo fosse, na verdade, a melhor otimização da sua vida?
Porque quando você solta a necessidade de controlar tudo, você libera energia pra sentir. Quando você para de medir cada aspecto da sua rotina, você começa a perceber o que realmente importa. Quando você deixa de performar bem-estar e simplesmente vive, você finalmente descansa de verdade.
Não estou dizendo pra largar tudo e virar o caos. Estou dizendo que talvez, só talvez, você não precise de doze produtos no rosto pra estar bem. Talvez você não precise contar cada grama de proteína para ser saudável. Talvez você não precise otimizar cada minuto do seu dia pra ter uma vida boa.
Talvez você só precise se permitir ser humana.
Algumas perguntas pra você se fazer:
Você faz isso porque te faz bem ou porque acha que deveria fazer? Se a resposta for “deveria”, já é um sinal.
Quando foi a última vez que você sentiu prazer puro, sem medir, sem registrar, sem postar? Se você não lembra, tá na hora de reaprender.
Você confia mais no app ou no seu corpo? Se for no app, você terceirizou demais o seu autoconhecimento.
Qual parte da sua semana não está otimizada? E como você se sente nela — culpada ou livre?
Que possamos viver com mais autenticidade, com todos os processos de alto e baixos que fazem parte de uma vida real.
Artigo Por Carol Padilha
Comunicadora de bem-estar, consciência e performance humana
#GlitterUpYourLife