Na semana passada, na manhã de terça-feira, tinha sete separadores abertos no computador, duas conversas no WhatsApp a meio, um e-mail marcado como “urgente” de há três dias que continuava por responder, e uma lista de tarefas em atraso. A minha ansiedade começou a aumentar. Fechei o portátil e fui tomar um café.
Não porque tivesse terminado tudo. Estava longe disso. Mas porque percebi, ali, que não ia terminar nada naquele estado.
Existe uma palavra que nos persegue. Urgente. Tudo é urgente. O e-mail é urgente. A resposta à amiga é urgente. O artigo tem prazo urgente. A consulta que marquei há três meses é urgente. A série que toda a gente já viu e eu não vi ainda é, de alguma forma, urgente. Vivemos num estado de emergência permanente que, paradoxalmente, nos imobiliza. Quando tudo tem prioridade máxima, o cérebro encolhe os ombros e não faz nada.
Já tentei a matriz de Eisenhower, onde se separa o urgente do importante, o que pode ser delegado do que pode simplesmente desaparecer. Funciona no papel. No papel, eu sou muito organizada. Na vida, recebo uma notificação enquanto estou a preencher a matriz e já está, perdi o fio.
O problema não é a falta de método. É que vivo num mundo que decidiu que a velocidade de resposta é uma forma de respeito. Que responder depressa significa que me importo. Que uma pausa é uma negligência disfarçada. E interiorizei isso tão bem que agora sou eu própria a criar a urgência, mesmo quando não existe ninguém a exigi-la.
Há uma pergunta que comecei a fazer-me, ainda com resultados irregulares: urgente para quem? Muitas vezes a resposta é surpreendente. Urgente para uma versão ansiosa de mim que confunde antecipação com produtividade. Urgente porque se eu não fizer agora vou pensar nisto o resto do dia.
O que percebi, devagar e com alguma resistência, é que priorizar não é escolher o que fazer primeiro. É escolher o que importa de facto. E isso implica aceitar que algumas coisas vão ficar por fazer. Que o e-mail vai esperar. Que a amiga percebe. Que a série vai continuar lá na semana que vem. Implica uma certa coragem de decepcionar a versão de mim que quer dar conta de tudo, a toda a hora, sem deixar nada cair.
Nessa terça-feira, depois do café, voltei ao computador e abri uma única aba. Fiz uma coisa. Depois outra. Não salvei o mundo nem terminei a lista. Mas no final do dia havia menos barulho na cabeça, e isso pareceu-me, pela primeira vez em muito tempo, uma forma legítima de ter sido produtiva.
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