Inchaço constante, cansaço, desconforto abdominal, alterações intestinais e até impacto no humor. Cada vez mais se fala de saúde digestiva e microbiota intestinal, mas a verdade é que ainda existem muitas dúvidas sobre a forma como o intestino influencia o bem-estar físico e emocional. Nesta entrevista, conversámos com Núria Nunes, nutricionista especializada em doenças inflamatórias intestinais, síndromes digestivos e condições autoimunes, para perceber porque é que o intestino é hoje visto como um dos pilares mais importantes da saúde.

Nos últimos anos fala-se cada vez mais da microbiota intestinal. Afinal, porque é que o microbioma se tornou tão importante para a saúde e bem-estar geral?
O microbioma intestinal ganhou enorme destaque nos últimos anos porque hoje sabemos que o intestino vai muito além da digestão. A microbiota intestinal participa ativamente na regulação do sistema imunitário, na integridade da barreira intestinal, na produção de metabolitos importantes e até na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Atualmente, percebe-se que alterações no microbioma podem estar associadas não apenas a sintomas digestivos, mas também a doenças metabólicas, autoimunes, inflamatórias, dermatológicas e até alterações do humor e da imunidade.
Probióticos, pré-bióticos e pós-bióticos: quais são as principais diferenças entre estes “bióticos” e como podem ser integrados de forma simples na alimentação do dia a dia?
Os probióticos são microrganismos vivos que, quando consumidos em quantidades adequadas, conferem benefícios para a saúde. Encontram-se sobretudo em alimentos fermentados, como iogurtes, kefir ou alguns suplementos específicos.
Os pré-bióticos, por outro lado, não são bactérias. São fibras ou substratos que servem de “alimento” para as bactérias benéficas do intestino, estimulando o seu crescimento. Estão presentes naturalmente em alimentos como aveia, alho, cebola, banana, leguminosas ou espargos.
Já os pós-bióticos representam uma área mais recente e inovadora da ciência do microbioma. São preparações de microrganismos inanimados e/ou dos seus componentes, capazes de conferir benefícios para a saúde mesmo sem estarem vivos. Isto permite maior estabilidade tecnológica e segurança, facilitando a incorporação em diferentes alimentos, incluindo produtos UHT.
Na prática, uma alimentação variada, rica em vegetais, fibras e alimentos fermentados continua a ser a base para uma boa saúde intestinal. Atualmente, começam também a surgir alimentos funcionais enriquecidos com pós-bióticos, permitindo integrar estes compostos de forma simples no dia a dia.
Hoje fala-se numa “nova era do leite”, mais ligada à saúde digestiva e funcional. O que mudou na forma como olhamos para esta categoria alimentar?
Durante muitos anos, o leite foi visto sobretudo como uma fonte de cálcio e proteína. Hoje, a ciência alimentar e o conhecimento sobre o microbioma vieram trazer uma nova perspetiva: a possibilidade de utilizar o leite como veículo funcional para compostos com impacto na saúde digestiva e imunológica.
O desenvolvimento dos pós-bióticos veio permitir incorporar funcionalidade microbiológica em produtos não fermentados, como o leite UHT, algo que era mais difícil com probióticos vivos devido à sensibilidade ao calor e às condições de conservação.
Atualmente existem soluções tecnologicamente mais estáveis, capazes de manter compostos bioativos ao longo da validade do produto, sem alterar as características nutricionais ou organoléticas do leite. Isto representa uma evolução importante na área dos alimentos funcionais.
Além disso, observa-se uma crescente procura por produtos adaptados a necessidades digestivas específicas, como leites sem lactose ou enriquecidos com ingredientes funcionais associados ao bem-estar intestinal e ao suporte do sistema imunitário.
Muitas pessoas queixam-se de desconforto digestivo, inchaço ou sensação de má digestão. Que hábitos alimentares podem ajudar a melhorar a saúde intestinal?
A saúde intestinal depende muito da consistência dos hábitos alimentares e não apenas de soluções pontuais. Uma alimentação rica em fibra, vegetais, fruta, leguminosas e alimentos minimamente processados tende a favorecer uma microbiota mais equilibrada.
Também é importante mastigar adequadamente, evitar refeições demasiado rápidas e reduzir o excesso de ultraprocessados, álcool e açúcares em excesso, que podem contribuir para alterações da microbiota e maior inflamação intestinal.
Em algumas pessoas, identificar intolerâncias alimentares específicas, como lactose, pode fazer diferença importante no controlo do desconforto digestivo.
A hidratação adequada, o sono, a gestão do stress e a prática regular de exercício físico também influenciam diretamente o intestino e a composição da microbiota.
Hoje sabemos que o intestino funciona como um verdadeiro “ecossistema”, e por isso a abordagem deve ser global e individualizada.
Sente que existe hoje uma maior preocupação das pessoas com a saúde digestiva e o impacto da alimentação no bem-estar geral? O que mudou nos últimos anos?
Sem dúvida. Atualmente existe muito mais informação disponível sobre a relação entre alimentação, microbiota intestinal e saúde global. As pessoas estão mais atentas aos sintomas digestivos, ao impacto da alimentação na energia, imunidade, pele, humor e qualidade de vida.
Também houve um aumento significativo da literacia em torno da saúde intestinal, muito impulsionado pela investigação científica e pela divulgação do conceito de microbioma. Hoje, muitos consumidores procuram alimentos mais funcionais, produtos com benefícios digestivos e soluções adaptadas às suas necessidades individuais.
Ao mesmo tempo, existe uma maior consciência de que sintomas como inchaço, desconforto digestivo ou alterações intestinais frequentes não devem ser considerados “normais”. Isso levou muitas pessoas a procurarem acompanhamento especializado e abordagens mais preventivas.
A evolução da investigação em áreas como probióticos, pós-bióticos e nutrição personalizada também veio transformar a forma como olhamos para a alimentação: deixou de ser apenas uma questão de nutrientes e passou a ser vista como uma ferramenta ativa de promoção de saúde e bem-estar.
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