Entre likes e validação, o que é que as redes sociais estão a fazer à nossa autoestima?

As redes sociais fazem parte da vida de praticamente toda a gente. São entretenimento, ligação, inspiração, trabalho e, muitas vezes, até uma extensão da nossa identidade. Mas há uma pergunta que começa a surgir cada vez mais: até que ponto o nosso valor pessoal está a ficar dependente da validação digital?

Porque há uma diferença importante entre gostar de partilhar momentos online e precisar da reação dos outros para nos sentirmos bem connosco.

Segundo a psicóloga Cátia Silva, o problema começa precisamente aí: quando a aprovação externa deixa de ser apenas agradável e passa a ser necessária.

“Cada notificação ativa sensações de prazer, que reforçam aquele comportamento. O cérebro aprende rapidamente a repetir aquilo que traz validação”, explica. O problema instala-se quando essa validação deixa de ser opcional e começa a influenciar diretamente a forma como a pessoa se vê a si própria.

A comparação tornou-se constante

A verdade é que nunca estivemos tão expostos à vida dos outros. Ou, pelo menos, às versões editadas dela.

Corpos perfeitos, rotinas organizadas, relações felizes, produtividade constante, viagens, conquistas. Tudo filtrado, selecionado e apresentado da forma mais apelativa possível. E mesmo sabendo racionalmente que aquilo não representa a realidade completa, o cérebro continua a comparar.

Segundo Cátia Silva, este contacto permanente com versões idealizadas da vida dos outros cria frequentemente uma sensação de inadequação.

“Na prática clínica, este padrão é cada vez mais comum. Pessoas que chegam à consulta sem saberem exatamente o que sentem, mas com a sensação constante de estarem sempre aquém.”

Quando a autoestima depende do algoritmo

O impacto não está apenas no humor do dia.

A médio e longo prazo, esta dependência da validação digital pode contribuir para ansiedade, irritabilidade, humor deprimido e dificuldade em regular emoções. Não necessariamente porque as redes sociais sejam “más”, mas porque a utilização constante cria um ambiente de comparação e exigência praticamente impossível de sustentar.

Há também dois efeitos menos falados, mas igualmente importantes.

O primeiro é a perda de identidade. Quando passamos demasiado tempo a adaptar-nos ao que gera aprovação, torna-se mais difícil perceber aquilo de que realmente gostamos, pensamos ou queremos.

O segundo é a dificuldade em lidar com silêncio e ausência de estímulo. A necessidade constante de notificações, conteúdo e interação reduz a capacidade de estar simplesmente presente — connosco próprios.

Então a solução é deixar as redes?

Não necessariamente.

A psicóloga defende que o mais importante não é eliminar as redes sociais, mas criar uma relação mais consciente com elas.

Fazer pausas, questionar a intenção por trás de certas publicações, investir mais em relações presenciais e lembrar constantemente que aquilo que vemos online é apenas uma parte muito editada da realidade pode ajudar a criar uma relação mais saudável com o digital.

Porque no fundo, a questão não é usar redes sociais.

É perceber até que ponto estamos a deixar que elas definam quem somos.


Artigo Por Cátia Silva
Psicóloga especialista em PHDA, ansiedade, burnout, depressão, luto e autoestima

https://catiasilvapsi.pt/
Instagram @catiasilva.psi

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