Dia Mundial da Reciclagem: as marcas portuguesas que estão a transformar o lixo em moda

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Reciclagem, e se achaste que era um dia para pensar em separar o lixo em casa, bem, isso também. Mas há uma conversa muito mais interessante a ter: a da moda como motor de mudança. Porque enquanto a indústria têxtil continua a ser uma das mais poluentes do mundo, há um grupo crescente de marcas portuguesas que decidiram fazer diferente. Não como gesto simbólico. Como modelo de negócio.

Aqui estão algumas das que merecem o teu radar e o teu dinheiro.

Zouri – sapatos feitos com o plástico das nossas praias

Começamos pelo mais literal: a Zouri é uma marca de calçado que fabrica os seus sapatos a partir de plástico recolhido ao longo da costa portuguesa. Todos os produtos são ecológicos e sustentáveis, feitos a partir de materiais reciclados, algodão orgânico ou pele de ananás, com produção inteiramente feita em Portugal de forma justa.

Cada par de sandálias Zouri reutiliza o equivalente a oito garrafas de plástico retiradas do oceano. A entressola é em cortiça, a sola em borracha natural, e o resultado é um calçado que é genuinamente bonito, vegan e fabricado à mão em Barcelos. É o tipo de compra em que consegues fazer as pazes com o facto de precisares de mais umas sandálias para o verão.

Béhen – os enxovais da avó transformados em peças de coleção

Esta é uma das histórias mais bonitas do upcycling português. Depois de um mestrado em Londres, onde foi incentivada a questionar o seu papel enquanto designer, e um estágio numa marca Fair Trade na Índia, Joana Duarte regressou a Portugal com vontade de criar um projeto com impacto. A ideia surgiu no meio dos enxovais e bordados da sua avó, ao ouvir repetidamente que ia tudo para o lixo porque já ninguém queria. Nasceu assim a Béhen, com uma enorme vontade de mudar a perceção das novas gerações sobre estes materiais e técnicas artesanais.

A marca apresentou a sua primeira coleção na ModaLisboa em março de 2020, capturou de imediato a atenção da imprensa internacional, e no ano seguinte foi distinguida no concurso The International Sustainable Fashion Design.

O que começou nas arcas da avó envolve hoje arcas e gavetas de muitas outras pessoas, de norte a sul do país, que chegam à marca através de feiras, armazéns antigos ou simplesmente de pessoas que sabem o que a Béhen faz e oferecem peças dos seus enxovais. Lençóis bordados, rendas antigas, toalhas de linho. Materiais com história que se transformam em peças únicas, de edição limitada, que já não poderão ser repetidas. O oposto perfeito do fast fashion.

Cura by the Sea – as camisas nascidas dos lençóis do hotel

Tudo começou quando Joana Faustino se fartou de ver várias caixas na despensa do seu hotel You and the Sea, na Ericeira, cheias de lençóis de grande qualidade, de 100% algodão, que tinham pequenas manchas ou rasgões e, portanto, não podiam ser utilizados. Eram demasiado bons para desperdiçar. Foram convidados artistas a dar-lhes uma nova vida, e de velhos lençóis esquecidos nasceram camisas com técnicas artesanais únicas, de edição limitada, que se tornaram um sucesso imediato.

Até à data, a Cura by the Sea conseguiu colecionar e guardar aproximadamente 600 lençóis de dois hotéis, a partir dos quais espera criar mais de 1500 camisas. O projeto expandiu-se também para uniformes para restaurantes, o mais recente passo da marca.

É o tipo de produto que tem uma história para contar antes de sequer sair da embalagem. E que prova que o desperdício é muitas vezes apenas uma questão de falta de imaginação.

Benedita Formosinho – o fio que renasce dos retalhos do atelier

A Benedita Formosinho vende novelos de fio reciclado ecológico, além de peças de roupa sustentáveis e intemporais, numa aposta em “contribuir para uma informação consciente da comunidade em geral, sentindo nas suas mãos este poder transformador”.

O fio é o resultado de um projeto de circularidade que coloca um ponto final no desperdício gerado na produção: pequenos retalhos de tecidos resultantes do corte das peças, muitos deles de materiais nobres como manta alentejana, burel ou fibras orgânicas, são enviados do atelier e dos parceiros de confeção para uma empresa de reciclagem. Quando se atinge um volume viável, procedem à separação, reciclagem, cardação e fiação, dando uma nova vida ao “lixo” que regressa depois ao início do processo criativo.

É a circularidade na sua forma mais literal: o que sobra de uma peça alimenta a próxima coleção.

#GlitterUpYourLife