Ainda há quem tenha medo de ser quem é

Há pessoas que nunca tiveram de pensar duas vezes antes de dar a mão a alguém na rua.

Nunca calcularam o tom de voz antes de falar sobre quem gostam. Nunca sentiram necessidade de “medir o ambiente” antes de mencionar a própria identidade. Nunca ensaiaram mentalmente respostas para o caso de alguém reagir mal.

E depois há quem faça isso todos os dias.

O Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia existe precisamente porque, em 2026, continuar a ser quem se é ainda pode trazer medo. Medo real. Não abstrato. Não simbólico.

O medo de perder relações. O medo de violência. O medo de ser olhado de forma diferente. O medo de existir “demasiado alto”.

Às vezes esquecemo-nos de como a liberdade pode ser desigual. Porque para muita gente, coisas aparentemente simples continuam a exigir coragem. Assumir uma relação. Corrigir um pronome. Vestir-se da forma que faz sentido. Entrar num espaço sem tentar perceber primeiro se é seguro.

E o mais estranho é isto: há quem ainda ache que falar destes temas é exagero. Como se igualdade já estivesse totalmente conquistada porque existem séries LGBTQIA+, marcas com bandeiras arco-íris em junho e algumas leis que mudaram.

Mas direitos no papel e conforto na vida real são coisas diferentes.

Ainda há adolescentes expulsos de casa. Pessoas trans constantemente desumanizadas em debates públicos. Casais que evitam gestos de afeto em determinados sítios. Gente que passa anos a tentar parecer outra pessoa para sobreviver socialmente.

E talvez uma das partes mais cansativas seja precisamente essa necessidade constante de justificar a própria existência. Como se algumas pessoas tivessem sempre de explicar quem são para serem tratadas com o mínimo de respeito.

O mais irónico é que quase toda a gente só quer exatamente a mesma coisa: gostar de alguém sem medo, sentir pertença, viver em paz consigo própria.

Nada disto devia ser político. Nem controverso. Nem “tema”.

Devia ser só humano.

Mas talvez haja uma coisa importante a lembrar neste dia: a mudança nem sempre acontece apenas nas grandes manifestações ou nas leis históricas. Às vezes acontece em coisas pequenas. Na forma como corrigimos alguém. Na maneira como criamos espaços seguros. No cuidado com as palavras. No momento em que alguém percebe, pela primeira vez, que não precisa de se esconder para ser amado.

Porque no fundo, a luta contra a homofobia, transfobia e bifobia nunca foi sobre “aceitar diferenças”.

É sobre permitir que as pessoas existam sem terem medo disso.

#GlitterUpYourLife