Há uma crueldade com calendário. Acontece todos os anos, com a regularidade perturbante de quem já normalizou o que nunca devia ser normal. As malas fazem-se, os planos de férias confirmam-se, e algures no meio dessa logística há um cão que deixa de ter lugar no esquema.
O verão é, oficialmente, a época de maior abandono de animais de companhia em Portugal. Não é rumor, não é impressão. São dados.
Os números que custam a ler
Em Portugal, estima-se que existam mais de 930 mil animais errantes entre cães e gatos. São cerca de 115 animais abandonados diariamente no nosso país. Cento e quinze. Por dia. É mais do que um por cada quatorze minutos.
Na primeira década desde que o abandono de animais foi criminalizado em Portugal, entre 2015 e 2024, as polícias registaram 6.711 crimes de abandono de animais de companhia e identificaram 3.014 suspeitos. A boa notícia, se é que existe uma nesta conversa, é que os números têm vindo a descer. Depois de 491 crimes de abandono registados em 2022, foram contabilizados 384 em 2023 e 380 em 2024. A consciência coletiva está a mudar. Mas ainda não chegou onde precisa de chegar.
Os distritos com maior número de crimes de abandono e maus tratos são Setúbal, Porto, Braga, Faro e Lisboa. Faro. O Algarve. O destino de férias de metade do país. A coincidência não é coincidência nenhuma.
Porque é que o verão é diferente
A resposta mais simples é a mais verdadeira: as pessoas vão de férias e não sabem o que fazer com o cão. A limitação de entrada de animais em praias, estabelecimentos comerciais e alojamentos de férias serve de motivo para muitos donos os deixarem nas ruas. Existem atualmente cerca de 90 praias em Portugal que autorizam a presença de cães, número considerado muito pouco significativo.
O maior problema que existe atualmente é a ausência de opções para animais nos hotéis e espaços de alojamento. E quando não há solução fácil, há quem tome a decisão errada. A decisão mais errada.
Há também quem nunca tenha pensado muito bem no que significa ter um cão antes de ter um cão. A GNR alerta que também se registam casos de abandono após a época natalícia, refletindo situações em que os animais foram oferecidos como presentes e, posteriormente, os detentores tomaram consciência dos encargos e responsabilidades inerentes à sua posse. Um cão não é uma prenda de Natal. Um cão não é um acessório de verão. Um cão é um compromisso de dez, doze, quinze anos.
O que o abandono faz a um animal
Porque isto não é apenas uma questão legal ou estatística. É uma questão de sofrimento real.
O abandono de um animal de companhia é uma experiência traumática que pode afetar física e emocionalmente os animais. Animais abandonados enfrentam uma quebra abrupta dos laços afetivos com os seus tutores, o que pode desencadear ansiedade, depressão, agressividade, medo profundo e generalizado e desconfiança.
Além do sofrimento emocional, o abandono expõe os animais a doenças infeciosas, desnutrição, desidratação e ferimentos graves ou mesmo morte, pela incapacidade de animais anteriormente domesticados lidarem com situações como o trânsito ou a necessidade de lutar por alimentação.
Um cão que viveu numa casa, que dormiu num sofá, que esperou à porta por alguém que chegava, não tem ferramentas para sobreviver sozinho na rua. Não é um lobo. É um animal que foi ensinado a depender de pessoas. E que depois foi deixado por essas mesmas pessoas.
É crime. A sério.
Segundo o Código Penal, o crime de abandono de animal de companhia é punido com até seis meses de prisão ou até 60 dias de multa. Não é uma advertência simbólica. É lei. E há cada vez mais fiscalização e identificação de suspeitos.
Mas a lei sozinha não resolve o que a consciência devia resolver antes.
O que podes fazer se não consegues levar o teu cão
Se tens um animal e este verão não consegues levá-lo contigo, existem alternativas que não incluem deixá-lo numa estrada nacional.
Os hotéis para animais e pet sitters são a opção mais comum e mais completa: alojamento, alimentação, atividades e por vezes cuidados veterinários incluídos. Pesquisa na tua zona com antecedência porque os meses de julho e agosto esgotam rapidamente.
O pet sitting ao domicílio é outra alternativa crescente em Portugal: um profissional vai a tua casa cuidar do animal na sua rotina habitual, minimizando o stress da mudança de ambiente.
A família e os amigos continuam a ser a opção mais económica e emocionalmente mais segura. Pergunta antes de assumir que não há solução.
E se mesmo assim não consegues, existem associações de acolhimento temporário que em alguns casos podem ajudar em situações de emergência real. A Liga Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA), a SOS Animal e muitas associações locais têm redes de famílias de acolhimento.
Uma última coisa
Se vires um cão abandonado este verão, numa estrada, num parque, numa praia deserta, não olhes para o lado. Liga para o número de emergência da GNR (112) ou para a câmara municipal local que tem obrigação de recolher animais errantes.
E se estás a pensar adotar, este verão os canis vão estar cheios de cães que merecem uma segunda oportunidade. Não compres. Adota.
Porque um cão que foi abandonado uma vez não precisa de aprender que as pessoas vão embora. Precisa de aprender que há pessoas que ficam.
#GlitterUpYourLife