Há dias em que me apanho a pensar: que saudades da minha vida de solteira. Assim, do nada. Normalmente acontece quando estou a discutir com alguém sobre quem deixou a luz da casa de banho acesa… outra vez. Ou quando me vejo a ver uma série que não escolhi, com um entusiasmo que claramente não é meu.
E é nesse momento que o meu cérebro romantiza tudo.
Saudades de decidir jantares às 22h30 sem ter de avisar ninguém. De sair “só para um copo” e voltar no dia seguinte com histórias duvidosas e uma vaga sensação de vitória. De ocupar a cama inteira, em posição estrela do mar, sem negociações nem cotoveladas.
Saudades de não ter de partilhar sobremesas. Este ponto merece um parágrafo só para ele.
Mas depois, como em qualquer boa memória seletiva, há detalhes que convenientemente se apagam.
Como aquela fase em que escolher o que ver na Netflix demorava mais do que ver o próprio filme. Ou os jantares improvisados que, na prática, eram uma mistura criativa de bolachas, queijo e decisões questionáveis. Ou aquele silêncio estranho ao fim do dia, quando não havia ninguém para comentar o absurdo que foi o trabalho.
A vida de solteira tinha liberdade, sim. Mas também tinha momentos de “será que mando mensagem?” que duravam três dias e meio e consumiam mais energia do que qualquer relação estável.
E depois há a parte prática. Ninguém para ir buscar pão quando não apetece sair. Ninguém para confirmar se aquele e-mail ficou demasiado passivo-agressivo. Ninguém para dizer “calma, isso resolve-se” quando claramente não se está com cabeça para resolver nada.
Claro que a vida a dois também tem os seus momentos. Como descobrir que há uma forma completamente errada de arrumar a loiça e que, aparentemente, tu és especialista nela. Ou perceber que “já vou” pode significar qualquer coisa entre 5 minutos e uma nova estação do ano.
Mas no meio disso tudo, há uma coisa que a vida de solteira não tinha: alguém que conhece os teus silêncios, que já sabe quando estás a precisar de espaço ou de chocolate, e que, mesmo assim, fica.
Por isso sim, às vezes tenho saudades. Mas são saudades filtradas, editadas, com banda sonora bonita e sem as partes menos glamorosas.
E ainda bem. Porque no fim do dia, trocar a liberdade de não ter ninguém pela sorte de ter alguém que fica… continua a ser um bom negócio.
#GlitterUpYourLife