Há uma fase em qualquer relação em que o “o que fazemos este fim de semana?” começa a ter sempre a mesma resposta. Série, restaurante, série outra vez. Não há nada de errado com isso, o conforto é uma das coisas mais bonitas de uma relação longa. Mas há também qualquer coisa de muito poderoso em descobrir um hobby a dois: a novidade partilhada, a incompetência mútua no início, o riso que vem de ambos estarem a aprender ao mesmo tempo.
Aqui vão sugestões que vão além do cooking class e do spa day. Coisas que criam memória, desenvolvem algo novo em cada um, e que são genuinamente fixes de fazer juntos.
Fermentação em casa
Kombucha, kefir, kimchi, pão de massa mãe, vinagre artesanal. O mundo da fermentação é vasto, acessível, e tem a vantagem pouco comum de produzir algo que podem comer ou beber no final.
Começa pelo mais simples: a massa mãe. É literalmente farinha e água que se alimenta todos os dias, cresce, tem um nome (é tradição dar-lhe um nome), e ao fim de duas semanas produz o melhor pão que alguma vez vão comer em casa. Há uma satisfação enorme em comer algo que criaram literalmente do zero, e o processo em si, alimentar o fermento, perceber quando está ativo, testar receitas, é um projeto partilhado que se encaixa naturalmente na rotina.
Para os mais aventureiros: fazer cerveja artesanal em casa. Existem kits de iniciação que simplificam o processo, e o resultado, mesmo imperfeito, tem o sabor especial de tudo o que se faz com as próprias mãos.
Escalada em sala
Nenhum de vocês precisa de estar em forma, nenhum precisa de ter experiência, e nenhum precisa de não ter medo de alturas porque as paredes de iniciação são relativamente baixas.
O que a escalada em sala tem de especial enquanto hobby de casal é a dinâmica que cria. Numa modalidade, uma pessoa trepa e a outra assegura. Há literalmente um momento em que estás nas mãos do outro, o que por si só cria uma confiança física que não tem paralelo noutras atividades. E há o desafio conjunto de decifrar os problemas nas paredes, perceber qual a sequência de movimentos, tentar de novo quando falham.
Em Lisboa há várias salas de bouldering onde se pode entrar sem qualquer equipamento ou experiência prévia. No Porto, idem. É uma tarde completamente diferente do habitual, e normalmente sai-se com os braços cansados, a rir, e com vontade de voltar.
Se a escalada não for a vossa praia, escolham outra modalidade que vos entusiasme. Aulas de dança, de surf ou apenas correr juntos. O que importa é o tempo que passam um com o outro.
Fotografia analógica
Não o Instagram. Não os filtros. Uma câmara de filme a sério, com rolo de 36 fotografias, onde cada disparo conta e não há ecrã para ver o resultado imediato.
Compram uma câmara analógica em segunda mão (há muita coisa boa por 30 a 60 euros em mercados de vintage e online), escolhem juntos um rolo, e passam um dia ou uma semana a fotografar o que vos chama a atenção. Quando o rolo acaba, mandam revelar e esperam. Há uma magia enorme em abrir um envelope com fotografias reveladas que tiraram há duas semanas e já não se lembravam exactamente de todas.
A fotografia analógica obriga a olhar de forma diferente, a decidir com mais cuidado, a estar mais presente no momento antes de disparar. É um hobby que tem tanto de técnica como de sensibilidade, e que produz objectos físicos, impressões reais que podem pendurar em casa.
Aprender uma língua juntos
Sim, é menos tangível que os outros, mas é um dos hobbies mais transformadores que um casal pode partilhar. Escolhem uma língua que nenhum dos dois fala: japonês, árabe, italiano, swahili. Qualquer uma que vos intrigue.
Usam a mesma app ou plataforma, estudam ao mesmo tempo, testam um no outro, veem filmes nessa língua com legendas, e começam a ter pequenas conversas em casa misturando as palavras novas com o português. É engraçado, é às vezes frustrante, e cria um código partilhado que ninguém à vossa volta percebe.
A cereja no topo: o objetivo pode ser uma viagem ao país onde essa língua se fala, o que dá à aprendizagem um propósito concreto e uma data no horizonte.
Criação de conteúdo absurdo
Este é o mais descarado da lista e também provavelmente o mais divertido. Criam juntos uma conta anónima de qualquer coisa completamente aleatória. Um perfil de Instagram de pedras que parecem caras famosas. Um podcast sobre a história de edifícios abandonados da vossa cidade. Um canal de YouTube onde tentam recriar receitas de países que nunca visitaram sem consultar a internet.
A questão não é ficar famosos, é ter um projeto criativo partilhado que é completamente vosso, que vos faz rir, e que desafia a criatividade de formas que o trabalho raramente faz. O facto de ser anónimo tira a pressão e deixa espaço para experimentar sem consequências.
Reparar coisas
Tem um nome chique agora: repair culture. Mas na prática é simplesmente aprender a consertar o que se parte em vez de deitar fora. Numa tarde por mês, identificam algo em casa que está partido ou degradado, um cadeado que range, uma cadeira com perna frouxa, uma roupa com rasgão, um aparelho que deixou de funcionar, e tentam arranjar juntos.
O YouTube tem tutoriais para literalmente tudo, e a satisfação de reparar algo com as próprias mãos é surpreendentemente grande. É também um hobby que poupa dinheiro, reduz desperdício, e desenvolve uma autonomia doméstica que é genuinamente útil. Não é glamoroso, mas é extraordinariamente satisfatório.
A regra com hobbies de casal é a mesma que com qualquer outro aspeto de uma relação: não precisam de gostar de tudo da mesma forma. Basta que haja boa vontade para experimentar, paciência para o início desajeitado de qualquer coisa nova, e o reconhecimento de que partilhar uma incompetência é uma das formas mais honestas de estar com alguém.
Escolhe um da lista. Propõe hoje à noite. E começa pelo mais absurdo.
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