Abres a dating app que mais usas, pensas “só cinco minutos” … e, quando dás conta, já passou meia hora. Falta de disciplina? Distração? Não! É mesmo o resultado de como estas apps estão desenhadas.
Cada novo perfil que surge no ecrã, cada match, cada mensagem traz uma pequena descarga de entusiasmo. E esse entusiasmo tem nome: dopamina. Já ouviste falar?
A dopamina é um neurotransmissor ligado ao prazer, à motivação e, sobretudo, à antecipação de recompensa. Ou seja, não está tanto relacionada com o que já tens, mas com aquilo que podes vir a ter, o que pode vir a acontecer. É o que te faz querer continuar a usar, e ver quem aparece a seguir, as mensagens que vais trocar, com quem vais num date…
Nas dating apps, isso não acontece por acaso. Elas estão pensadas para captar e manter a tua atenção e, em certa medida, criar um comportamento cíclico e quase viciante. O gesto de fazer swipe é simples, rápido e intuitivo, e os resultados não são totalmente previsíveis: às vezes há match, outras vezes não. E é precisamente essa incerteza que torna o uso mais envolvente.
Este mecanismo não é novo. É semelhante ao das máquinas de jogo dos casinos, onde nunca sabes exatamente quando vai surgir a recompensa e é isso que te faz continuar. No caso das dating apps, a “recompensa” é a possibilidade de te sair o jackpot relacional.
Mas o impacto desse mecanismo começa a notar-se no uso. Dás por ti a abrir a app em pequenos momentos do dia, enquanto esperas por alguém, numa pausa, antes de dormir, não porque decidiste, mas porque já se tornou quase automático. Sem dares por isso, estás inconscientemente à procura da próxima recompensa, sem parares para perceberes como te estás realmente a sentir.
Consequência: no meio de tantos perfis, conversas e notificações, pode surgir um certo cansaço mental. Como se estivesses sempre ligada, sempre disponível, sempre a avaliar, mas sem uma intenção clara. Um estado de piloto automático. E, sem o perceberes, aquilo que começou por ser leve e divertido pode tornar-se um pouco desgastante.
Mas podes evitar isso. Uma das formas mais simples é trazer alguma intenção ao uso. Pequenos ajustes que fazem a diferença. Podes, por exemplo, definir momentos específicos para usar as apps, em vez de as abrir automaticamente sempre que tens um momento livre.
Também ajuda abrandar o ritmo. Nem todos as apps obrigam a uma decisão imediata, nem todas as conversas têm de acontecer ao mesmo tempo. Às vezes, menos estímulos tornam a experiência mais clara e até mais leve. E até evita confundires quem é quem…
Outro ponto importante é reconhecer quando precisas de parar. Se começaste a sentir que estás mais cansada do que curiosa, mais distraída do que interessada, pode ser sinal de que está na altura de fazer uma pausa, nem que seja por uns dias.
No fundo, usar dating apps sem drama passa por isto: perceber que o entusiasmo faz parte, mas não precisa de controlar a experiência. Quando deixas de estar em piloto automático e passas a usar com mais consciência, tudo se torna mais simples.
E mais leve, também.
Artigo Por Rita Sepúlveda
Investigadora ICNOVA, Instituto de Comunicação da Nova
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