Já reparaste que há alturas do mês em que te sentes particularmente bem na tua pele? Mais confiante, mais sociável, com mais energia e, sim, com mais vontade de sexo? E depois há aquelas outras semanas em que o sofá, o chocolate e o silêncio são a única companhia que queres?
Não és instável. Não é falta de consistência. É o teu ciclo a falar, e quanto mais cedo perceberes o que ele está a dizer, mais aliada te tornas do teu próprio corpo.
Primeiro, as protagonistas: as hormonas
Para perceber a relação entre o ciclo e o desejo, precisamos de conhecer as principais hormonas em jogo. O estrogénio é produzido por um folículo no ovário e atua no preparo do corpo para uma eventual gestação. A testosterona, presente também nas mulheres, tem como principal função o aumento do desejo sexual. A progesterona é essencial para preparar o organismo para uma gestação. E a hormona luteinizante, produzida no cérebro, é a responsável por iniciar o amadurecimento dos folículos e todo o processo de ovulação.
Estas quatro hormonas sobem e descem ao longo do mês de forma cíclica, e é esse movimento que explica grande parte das variações de humor, energia, pele, apetite e, claro, libido que sentes ao longo de cada ciclo.
Fase 1: Menstruação – o reinício
O ciclo começa com a menstruação, e aqui as reações são, como tudo neste tema, muito individuais. Para a libido durante a fase menstrual, é frequente a situação ser de oito ou oitenta: há mulheres que estão totalmente com desejo e outras na vibe de “não me toque”.
Do ponto de vista hormonal, os níveis de estrogênio e progesterona estão baixos no início do período. Mas há outro fator que muitas mulheres referem: a sensação de alívio que vem com a chegada da menstruação pode, ela própria, contribuir para um aumento do desejo. O fluxo sanguíneo pélvico também aumenta, o que pode tornar a zona genital mais sensível.
Se te apetece e o teu corpo pede, não há razão nenhuma para não o fazer. Se preferes ficar quieta com uma almofada de calor na barriga, essa resposta é igualmente válida.
Fase 2: Fase Folicular – o despertar
Depois da menstruação, o corpo entra na fase folicular e começa a ganhar energia. É durante esta fase que o ciclo menstrual se reinicia e os níveis de estrogénio, testosterona e ocitocina começam a aumentar, sendo comum as mulheres sentirem um aumento progressivo no desejo sexual.
É provavelmente a fase em que te sentes mais tu própria: mais criativa, mais comunicativa, mais disponível para o mundo. A pele tende a melhorar, o humor estabiliza, e aquela sensação de “hoje estou bem” não é imaginação tua.
Fase 3: Ovulação – o pico
Se existe uma fase do ciclo associada ao desejo, é esta. Durante a fase ovulatória, o estradiol está presente em quantidades significativas e pode interagir com outras hormonas para aumentar a libido. O estradiol torna a insulina mais eficaz, a insulina diz ao corpo para libertar mais testosterona, e a testosterona é uma das hormonas que regulam o desejo sexual.
Com o corpo a preparar-se para libertar o óvulo, os níveis de estrogénio e testosterona aumentam a lubrificação e o desejo sexual. Até mesmo a energia e a autoestima ficam elevadas nestes dias, sendo esses apenas alguns dos sintomas do período fértil.
Estudos recentes concluíram que as mulheres são de facto mais propensas ao comportamento sexual pouco antes de ovular, tendendo também a ser mais tolerantes à dor nesta fase do ciclo. É o pico. O momento em que o corpo está literalmente no seu estado mais fértil e mais recetivo.
Mas há uma nuance importante que vale sublinhar. Se o desejo sexual da mulher estivesse apenas ligado ao período fértil, o que aconteceria com as que usam pílulas anticoncepcionais ou outros métodos hormonais que inibem a ovulação? E com as que chegam à menopausa e não ovulam mais? A resposta é que o desejo é muito mais complexo do que a biologia reprodutiva. As hormonas influenciam, mas não determinam tudo.
Fase 4: Fase Lútea – a descida
Depois da ovulação, se não houver fertilização, o corpo começa a preparar-se para a próxima menstruação e os níveis hormonais descem. À medida que os níveis de progesterona aumentam, pode começar a sentir-se mais irritável, porque a progesterona ajuda o corpo a produzir cortisol, uma hormona que tende a estar mais elevado em pessoas stressadas. Se os níveis de cortisol já estiverem altos devido a fatores externos, a progesterona pode causar um excesso, amplificando sentimentos indesejáveis nos dias anteriores à menstruação.
Com a subida da progesterona e os sintomas da TPM a darem sinais, há uma tendência para a queda da libido. O corpo está em modo de recolha, a processar, a preparar o terreno para recomeçar. É uma fase que pede mais descanso, mais silêncio e menos exigência.
E a pílula? Muda tudo isto?
Sim, de forma significativa. Os contracetivos hormonais combinados suprimem a ovulação e alteram os padrões naturais de flutuação hormonal, o que pode aplanar as variações de libido ao longo do mês. Algumas mulheres referem uma diminuição geral do desejo com a pílula, outras não notam diferença. Os cientistas acreditam que o estradiol aumenta a excitação sexual nas mulheres, baseando-se no facto de mulheres na pós-menopausa que referem falta de desejo sexual terem níveis mais baixos de estradiol em circulação. Se sentes que a tua libido mudou desde que começaste um método hormonal, vale a pena falar com a tua ginecologista.
O que fazer com esta informação
A ideia não é criar uma agenda de desejo, marcando no calendário os dias em que “deves” ter vontade. Isso seria transformar algo orgânico e fluído numa obrigação, que é precisamente o oposto do que queremos.
A ideia é conheceres-te. Perceberes que quando numa semana te sentes invencível e noutra semana não queres ser tocada, ambas as versões são reais e ambas têm razão de ser. Que o teu corpo não é imprevisível, é cíclico. E que há uma diferença enorme entre os dois.
Há apps de tracking menstrual que te ajudam a registar não só o fluxo mas também o humor, a energia, o desejo e outros sintomas ao longo do mês. Com dois ou três ciclos registados, começas a ver padrões que te surpreendem pela sua consistência.
Conhecer o teu ciclo é uma das formas mais práticas e mais subestimadas de te relacionares melhor contigo própria, com o teu corpo e com quem te rodeia.
O teu corpo tem um ritmo. Aprende-o.
#GlitterUpYourLife