Feito em família: as empresas portuguesas que provam que o legado é o melhor produto

Há uma coisa que as grandes empresas familiares têm em comum e que nenhum manual de gestão consegue ensinar: a certeza de que o que se está a construir vai durar mais do que uma vida. Essa consciência muda tudo. Muda a forma como se decide, a forma como se cuida de quem trabalha connosco, a forma como se olha para o futuro. Não é crescimento a qualquer custo. É crescimento com propósito.

Portugal tem algumas das empresas familiares mais fascinantes da Europa, e muitas delas estão tão presentes no nosso dia a dia que já nem pensamos na história que existe por trás delas. As empresas familiares representam a mioria do tecido empresarial nacional, com um peso entre 60 a 70% do PIB. Aqui estão cinco que merecem ser conhecidas melhor.

Boutique dos Relógios — o imigrante polaco que mudou a relojoaria portuguesa

A história da Boutique dos Relógios começa muito antes das suas lojas existirem. O legado remonta aos anos 1930, quando o relojoeiro polaco David Jaime Kolinski resolveu estabelecer-se em Portugal. Décadas de trabalho silencioso construíram as bases de um negócio que o filho Salomão herdaria de forma abrupta e precoce: em 1977, com apenas 18 anos, Salomão Kolinski assume a direção da empresa após a morte do pai, aprendendo com ele os princípios do rigor, da ética e do valor da palavra dada.

Foi ele quem teve a visão de mudar a forma como os relógios eram vendidos em Portugal. Num ramo que evoluía muito lentamente, Salomão queria democratizar a relojoaria, inspirado pelas lojas abertas e acessíveis que via lá fora, em contraste com os espaços fechados onde quem entrava sentia uma pressão enorme para comprar. Em 1997 abriu a primeira Boutique dos Relógios no Centro Comercial Colombo, e nos anos seguintes expandiu pelo país inteiro.

Hoje, o grupo é dirigido por uma trindade familiar, com mais de 42 lojas em Portugal e uma faturação superior a 53 milhões de euros, mantendo a liderança no setor da relojoaria há vários anos. Três gerações, um legado, e a prova de que a ética de um relojoeiro polaco dos anos 30 ainda pulsa no coração de uma empresa moderna.

Casa Ermelinda Freitas — cem anos de vinho feito por mulheres

Esta é, sem dúvida, uma das histórias mais bonitas do empresariado português. A empresa foi iniciada em 1920 por Deonilde Freitas, continuada por Germana Freitas (filha) e, mais tarde, por Ermelinda Freitas (neta). Durante quase 80 anos, sob a alçada das três primeiras gerações, dedicou-se à produção de vinho a granel.

Foi a quarta geração que mudou tudo. Leonor Freitas, filha de Ermelinda, mudou-se para a quinta no dia em que perdeu o pai e decidiu transformar o negócio. O que veio a seguir foi extraordinário. Desde 1997, quando lançou a sua primeira marca própria, a Casa Ermelinda Freitas conquistou mais de dois mil prémios nacionais e internacionais, sendo atualmente exportada para mais de 40 países. Com 550 hectares de vinha na Península de Setúbal, a empresa liderada por Leonor Freitas vive hoje um momento de expansão com investimentos em enoturismo e presença nas regiões dos Vinhos Verdes e do Douro.

Quatro gerações de mulheres a conduzir um negócio centenário, com a filha de Leonor, Joana, já a preparar a quinta geração. Uma história de resiliência, visão e amor pela terra que não se improvisa.

Perfumes & Companhia — o império discreto de uma família que prefere que as marcas brilhem

A Arié SGPS foi fundada em 1954 por Roudolph Arié, homem de origem judaica que se instalou em Portugal para se tornar empreendedor, investindo na distribuição exclusiva de marcas de perfumaria, cosmética seletiva e moda. A família Arié é conhecida precisamente por não querer ser conhecida: discretos por natureza, raramente aparecem em público. “Toda a nossa vida profissional foi sempre no sentido de fazer crescer as marcas que trabalhamos. O estrelato está, por isso, nelas e não na nossa família”, apontou Renato Arié em 2018.

Hoje, a Perfumes & Companhia é a cadeia de referência na perfumaria e cosmética seletiva em Portugal. Com mais de 25 anos no mercado, mais de 120 lojas em Portugal, loja online e uma equipa de 900 profissionais, foi distinguida pelo terceiro ano consecutivo com o selo Superbrands e eleita uma das 1000 Companies To Inspire Europe pela London Stock Exchange.

Eugénio Campos — a marca de joias que foi pioneira antes de ser moda

Há mais de 30 anos, por iniciativa de Eugénio de Campos, nascia a empresa com o seu nome, focada em joias só em prata, numa tentativa de se demarcar de um setor com oferta pouco diversificada e sem grande criatividade. O que parecia um detalhe era, na verdade, uma revolução silenciosa.

Em 2002, Eugénio de Campos percebeu que faria sentido criar uma marca associada a uma imagem corporativa e a uma comunicação que marcava uma posição pioneira em Portugal. Na altura, Portugal só tinha empresas que produziam linha branca, sem marca própria. Foi um trabalho difícil, mas pioneiro.

Sediada em Vila Nova de Gaia, a Eugénio Campos Jewels é hoje uma referência incontornável da joalharia portuguesa, com distribuição nacional e ambição internacional. Uma marca com nome de pessoa, porque foi construída exatamente assim: com a personalidade, a visão e a teimosia de quem a fundou.

Pestana Hotel Group — do filho de um pescador madeirense ao maior grupo hoteleiro português

Esta é uma história que começa numa aldeia piscatória da Madeira e termina, por enquanto, com 100 hotéis em 16 países. Manuel Pestana nasceu em Ribeira Brava, Madeira, num ambiente humilde, sendo um de sete filhos. Compreendendo que as suas perspetivas na ilha eram limitadas, partiu para a África do Sul em busca de uma vida melhor, onde começou como trabalhador agrícola e foi construindo o seu caminho no comércio.

Com o sucesso nos negócios, Manuel Pestana teve a ambição de investir num hotel na Madeira, a ilha onde nasceu. Adquiriu em 1966 o pequeno Hotel Atlântico e construiu em seu lugar um novo hotel de cinco estrelas, inaugurado em novembro de 1972. Depois do 25 de Abril, com as dificuldades económicas e taxas de juro proibitivas, o filho Dionísio completou os estudos em gestão e aceitou o desafio do pai de tomar conta da operação na Madeira e tentar tornar o hotel viável. Juntos conseguiram transformá-lo num negócio rentável.

Hoje, o Pestana Hotel Group é o maior grupo de turismo e lazer internacional português, figurando entre os 25 maiores da Europa, com três marcas distintas: Pestana Hotels & Resorts, Pestana Collection Hotels e Pestana Pousadas de Portugal.

De um pescador madeirense que partiu para a África do Sul com nada, a um grupo hoteleiro com presença nos cinco continentes. Uma história que só é possível quando a ambição é acompanhada por valores que se transmitem de pai para filho.

O que estas histórias têm em comum

Olhando para estas cinco empresas, há um fio condutor que as une para além do ADN familiar: todas elas tiveram um momento de viragem em que alguém decidiu arriscar mais do que o confortável. Salomão Kolinski aos 18 anos. Leonor Freitas a mudar-se para a quinta no dia da morte do pai. Eugénio de Campos a criar uma marca quando ninguém o fazia no setor. Manuel Pestana a partir para a África do Sul sem garantias nenhumas.

As empresas familiares não são bem-sucedidas apesar de serem familiares. São bem-sucedidas por isso mesmo: porque há um nome em jogo, uma herança a proteger e uma promessa implícita de que o que se constrói hoje vai durar para a geração seguinte.

E quando isso funciona, funciona de uma forma que nenhuma empresa anónima consegue replicar.

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