O dia em que falamos de nós, jornalistas.

3 de maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Há uma estranheza particular em escrever sobre liberdade de imprensa. É um pouco como ser médico e ter de explicar porque é que a saúde importa. A resposta parece óbvia de dentro. E é precisamente por isso que precisa de ser dita lá fora, em voz alta, todos os anos, neste dia.

Hoje, 3 de maio, o mundo pára para reconhecer que a liberdade de imprensa não é um dado adquirido em lado nenhum. Nem nos países onde é abertamente suprimida, nem nos países onde existe no papel mas é corroída aos bocadinhos por pressões económicas, por concentração de meios, por algoritmos que premiam o ruído em vez da substância, por uma desconfiança crescente do público que foi alimentada durante anos por quem tinha interesse em que os jornalistas parecessem o inimigo.

Há jornalistas presos neste momento por terem feito o seu trabalho. Há repórteres mortos no último ano em zonas de conflito e fora delas. Há redações fechadas por falta de financiamento. Há jornalistas a receber ameaças nas redes sociais, sistematicamente, organizadamente, com o objetivo de os fazer calar ou de os fazer parecer parciais perante quem os lê. A estratégia funciona mais vezes do que devia.

E depois há a pressão que não tem nome nem rosto. A que se instala devagar, que não é uma proibição nem uma ameaça, mas é um clima. O editor que suspira quando o tema é difícil. O anunciante que liga. A história que fica na gaveta não porque alguém a proibiu, mas porque ninguém quer o incómodo. A autocensura que se disfarça de bom senso.

Não estou aqui a fazer-nos de mártires, nem a pedir aplausos para a profissão. O jornalismo tem os seus pecados, os seus preguiçosos, os seus oportunistas, como qualquer outra área. E parte do trabalho de fazer bom jornalismo é também ser crítico do mau jornalismo, mesmo quando dói porque é o lado de dentro que está a arder.

Mas estou aqui a dizer isto: numa democracia, a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas. É uma garantia para toda a gente. É o mecanismo que permite que os governos sejam escrutinados, que os abusos sejam expostos, que a versão oficial das coisas seja questionada por alguém com tempo, acesso e ferramentas para ir mais fundo. Quando essa liberdade enfraquece, não são os jornalistas que perdem primeiro. É o cidadão comum que fica sem saber o que se passa à sua volta.

Escolhi este trabalho sabendo que não é glamoroso nem bem pago nem fácil de explicar em jantares. Escolhi-o porque acredito que as histórias que ninguém quer que sejam contadas são precisamente as que mais precisam de o ser. Porque acredito que a pergunta incómoda feita no momento certo pode mudar alguma coisa. Porque acredito que o público, quando tem acesso a informação honesta e rigorosa, é capaz de tomar decisões melhores sobre a sua própria vida e sobre o mundo que partilha com os outros.

Neste dia, penso nos colegas que estão em sítios onde fazer essa pergunta pode custar a liberdade ou a vida. Penso neles com uma mistura de admiração e de tristeza que não tem palavras exatas.

E penso também no leitor. Em ti, que chegaste até aqui. Porque o jornalismo só existe se houver alguém disposto a lê-lo, a questioná-lo, a exigi-lo melhor quando falha, e a defendê-lo quando é atacado não porque é perfeito, mas porque o silêncio que viria no seu lugar seria muito pior.

A liberdade de imprensa é tua tanto quanto é minha. Guarda-a.