Há uma forma de perda que não tem nome oficial. Não há funeral, não há condolências, não há semanas de licença no trabalho. Não há ninguém que te pergunte como estás a lidar com isso, porque do ponto de vista do mundo lá fora, não aconteceu nada. A pessoa está viva. Está mesmo ali, sentada na cadeira da sala, ou deitada na cama do hospital, ou a olhar pela janela com aqueles olhos que já não te reconhecem da mesma forma.
E tu estás a fazer luto. Em silêncio, sozinha, sem vocabulário para o descrever.
Ela viu a mãe a deixar de ser a mãe que conheceu. Não de uma vez, que teria sido brutal mas de certa forma limpo. Foi aos bocadinhos. Primeiro foi a memória, que começou a ter falhas pequenas, do tipo que se podem desculpar com a idade. Depois foi a personalidade, que se foi afinando para algo mais agudo, mais estranho, menos familiar. E depois foi o olhar, que continuou a reconhecê-la mas já não da mesma forma, como se a câmara ainda funcionasse mas o foco tivesse mudado para sempre.
O que ela sentiu não foi tristeza. Bem, foi tristeza também, mas sobretudo foi uma confusão muito específica que demora tempo a nomear: a pessoa que eu amei existe ou não existe? Está aqui ou não está? Posso fazer luto de alguém que ainda respira, que ainda sorri, que ainda diz o meu nome?
A resposta, que ninguém lhe deu mas que ela foi descobrindo aos tropeções, é sim. Pode. Tem mesmo de o fazer.
Os psicólogos chamam-lhe luto antecipatório, ou luto ambíguo. Paul Boss, investigador americano que dedicou décadas a estudar este fenómeno, descreve-o como uma perda sem resolução possível, porque o objeto da perda continua presente fisicamente mas está ausente psicologicamente. É o luto mais difícil de processar precisamente porque não tem fim claro. Não há um momento em que se diz: agora acabou, agora posso começar a reconstruir. A perda acontece todos os dias, em doses, cada vez que ela procura a mãe que foi e encontra alguém diferente no mesmo corpo.
E há uma camada de culpa que vem por cima de tudo isto, que é muito particular deste tipo de luto. Ela sente falta da mãe na presença da mãe, e isso parece-lhe uma traição. Está com ela, está a tratá-la, está presente fisicamente, e ao mesmo tempo está a chorar a ausência de alguém que está sentado à mesa do lado. Como se pode sentir saudades de alguém que está mesmo ali? E no entanto sente. E no entanto é real.
O que ninguém conta sobre este luto é o cansaço que ele traz. Não só o cansaço físico de cuidar, que é imenso e real e completamente subestimado pela sociedade, mas o cansaço emocional de estar permanentemente em dois estados ao mesmo tempo: presente para a pessoa que está ali, e a fazer luto pela pessoa que já não está. É como viver em dois fusos horários em simultâneo, sem nunca conseguir sincronizar completamente.
Ela aprendeu, com o tempo, algumas coisas que ninguém lhe ensinou.
Aprendeu que fazer luto de alguém vivo não significa desistir dessa pessoa. Significa reconhecer honestamente o que mudou, sem fingir que não mudou nada, sem se obrigar a uma alegria que não sente só porque os outros acham que devia ser grata por a mãe ainda estar aqui. Estar grata e estar em luto não se excluem. Podem coexistir no mesmo coração, no mesmo dia, na mesma tarde.
Aprendeu que a versão antiga da mãe não precisa de ser apagada para dar espaço à versão atual. Pode guardá-la. Pode falar dela. Pode dizer “a minha mãe antes fazia isto” sem que isso seja uma crítica à mãe que existe agora. As duas são reais. As duas merecem espaço.
Aprendeu que precisa de lugares onde possa ser honesta sobre o que está a viver, porque o mundo lá fora tem muito pouca tolerância para a complexidade deste luto. As pessoas querem saber se a mãe está bem ou não está bem, se está a melhorar ou a piorar, se ela está a aguentar ou não. Não há muito espaço para a resposta verdadeira, que seria: está viva e eu estou a fazer luto dela ao mesmo tempo, e isso é muito estranho e muito difícil e não sei bem como explicar.
E aprendeu, talvez o mais importante, que cuidar de si não é abandono. Que ter um dia longe, que rir de uma coisa completamente diferente, que dormir uma noite inteira sem sentir culpa, que pedir ajuda antes de estar completamente esgotada: nada disto é trair a mãe. É a única forma de continuar a estar presente para ela sem se perder completamente a si própria no processo.
Existe um momento, que ela não sabe bem quando aconteceu, em que parou de procurar a mãe que foi em cada gesto da mãe que é agora. Não porque desistiu, mas porque percebeu que continuava a perder o que estava à sua frente na tentativa de recuperar o que já não estava. E o que estava à sua frente, mesmo diferente, mesmo difícil de reconhecer, continuava a ser a sua mãe. De outra forma. Numa tradução imperfeita.
O luto não acabou. Provavelmente não vai acabar enquanto houver vida para velar. Mas já não a engole da mesma forma.
Agora ela chora quando precisa, sem se envergonhar. Fala sobre isso com as pessoas certas. E volta sempre, porque é isso que se faz quando se ama alguém: volta-se, mesmo quando custa, mesmo quando a pessoa que encontramos não é exatamente a que esperávamos. Esse regresso, dia após dia, é também uma forma de amor. Talvez a mais corajosa de todas.
#GlitterUpYourLife