O tema dos óvulos, seja congelá-los para o futuro ou doá-los a quem precisa, aparece cada vez mais nas conversas entre mulheres. E ainda bem. Durante demasiado tempo foi um assunto rodeado de silêncio, de desinformação e de perguntas que ninguém sabia muito bem a quem fazer. Este artigo tenta mudar isso: informação clara, sem julgamentos, sobre duas opções que mais mulheres deviam conhecer.
Antes de mais, uma distinção importante: congelar óvulos e doar óvulos são coisas completamente diferentes, com motivações opostas, processos semelhantes e implicações legais distintas. Vamos a cada uma.
Congelar óvulos: investir na tua fertilidade futura
Congelar óvulos, tecnicamente designado criopreservação de ovócitos, é um processo médico que permite a uma mulher preservar os seus óvulos agora para os usar no futuro, caso queira engravidar mais tarde. A idade é um fator crucial para a qualidade dos ovócitos. A capacidade reprodutiva da mulher é, em grande parte, ditada pela quantidade e qualidade dos óvulos, que diminuem com o avançar da idade.
A ideia é simples: os óvulos que tens aos 28 anos são geneticamente melhores do que os que terás aos 38. Congelá-los agora é, em termos práticos, guardar essa qualidade para mais tarde.
Como funciona o processo
O processo começa com a estimulação ovárica, uma fase de 10 a 12 dias em que são administradas injeções hormonais subcutâneas para estimular os ovários a produzir mais do que um óvulo por ciclo, como acontece naturalmente. Durante este período, há consultas regulares de monitorização ecográfica para avaliar a resposta dos ovários.
No final da estimulação, é feita a punção folicular: uma intervenção minimamente invasiva, feita sob sedação leve, em que os óvulos maduros são recolhidos por via transvaginal com orientação ecográfica. O processo demora cerca de 20 minutos.
Os óvulos depois de colhidos são criopreservados num processo que se chama vitrificação, ou seja, congelamento ultra rápido, e são guardados a temperaturas de 196 graus negativos, em nitrogénio líquido.
Em Portugal, a lei permite guardar os óvulos por períodos de cinco anos, que podem depois ser renovados por mais cinco, ou até 15 anos em casos especiais.
Quanto custa em Portugal
O procedimento custa entre 2.500 e 3.000 euros, sem medicação incluída. Se a pessoa decidir prolongar o congelamento por mais cinco anos, os valores variam entre 500 e 700 euros. A medicação para a estimulação ovárica representa um custo adicional que pode variar bastante consoante o protocolo, pelo que convém pedir um orçamento detalhado à clínica antes de começar.
Em Portugal, este processo ainda não se faz nos hospitais públicos, uma vez que a prioridade é dada aos casais inférteis. Os tratamentos de preservação da fertilidade continuam a fazer-se no público apenas em algumas situações de doença oncológica. Ou seja, para congelar óvulos por razões pessoais, é necessário recorrer a clínicas privadas.
A partir de que idade faz sentido?
Não há uma idade certa, mas há uma janela ideal. Quanto mais cedo os óvulos forem recolhidos, maior a sua qualidade. A maioria das especialistas recomenda fazê-lo antes dos 35 anos para melhores resultados. Em Portugal, as mulheres recorrem a este tratamento, em média, aos 37 anos, o que já é um pouco mais tarde do que seria ideal.
Doar óvulos: ajudar outra mulher a ser mãe
A doação de óvulos é uma decisão completamente diferente. Aqui não se trata de guardar para si, mas de oferecer a outra pessoa a possibilidade de ter um filho que de outra forma não seria possível. Em Portugal, a venda de óvulos é rigorosamente proibida. O que existe é uma compensação económica pela doação, estipulada por lei para reembolsar as despesas incorridas com a doação, cujo limite se baseia no dobro do valor do Índice de Apoio Social em vigor.
Dito de outra forma: não se vendem óvulos em Portugal. Doa-se. E recebe-se uma compensação pelo tempo, desconforto e deslocações envolvidas no processo.
Quanto é essa compensação
Atualmente, em 2025, o IAS equivale a 522,50 euros, o que corresponde a um valor máximo de compensação por doação de 1.045 euros. Este valor é pago no final do processo e destina-se exclusivamente a cobrir despesas e incómodos, não a remunerar a doação em si.
Quem pode ser dadora
Para ser dadora é necessário ter entre 18 e 34 anos, dispor de boa saúde física e mental, não sofrer de nenhuma doença hereditária ou sexualmente transmissível, conhecer os antecedentes médicos pessoais e familiares, e ter um Índice de Massa Corporal saudável.
Antes de qualquer doação, são realizados vários exames de forma totalmente gratuita para a dadora, incluindo avaliação médica e psicológica, exame ginecológico, estudo genético e cariótipo. Estes exames complementares de diagnóstico permitem avaliar o estado de saúde da dadora e ficam disponíveis para a sua futura maternidade, caso venha a querer ser mãe.
Quantas vezes se pode doar
Uma mulher pode fazer quatro doações ao longo da vida, com pelo menos três meses de intervalo entre cada uma. Cada mulher nasce com cerca de 400.000 óvulos, ao longo da vida só vai dispor de cerca de 40.000, e todos os outros se perdem naturalmente. Mesmo que faça as quatro doações previstas na lei, e em cada doação se consigam 10 óvulos, no conjunto está apenas a disponibilizar 40 daqueles que se iriam perder.
Os riscos: o que precisas de saber
Tanto no congelamento como na doação, o processo médico é essencialmente o mesmo: estimulação ovárica seguida de punção folicular. O processo da colheita de ovócitos sob sedação é um processo invasivo que poderá ter complicações, embora muito raras.
A boa notícia é que a doação não afeta a fertilidade futura. O tratamento hormonal faz com que um maior número de ovócitos madure num ciclo, ovócitos esses que de outra forma se perderiam naturalmente.
Onde fazer em Portugal
Existem várias clínicas autorizadas em Portugal que realizam ambos os procedimentos, entre elas a AVA Clinic, o CETI, a Cemeare, a IVI Lisboa, o Instituto Bernabeu Lisboa e a Procriar. Antes de avançar com qualquer processo, vale a pena marcar consulta em mais do que uma clínica para comparar abordagens, protocolos e orçamentos.
A decisão é tua
Congelar óvulos é um ato de autonomia reprodutiva, a possibilidade de escolher quando e se queres ser mãe sem que o relógio biológico tome essa decisão por ti. Doar óvulos é um ato de generosidade extraordinária, a possibilidade de dar a outra mulher algo que ela não consegue ter sozinha.
São decisões diferentes, com pesos diferentes, que merecem ser tomadas com informação e sem pressão. O que importa é que sejam tomadas por ti, conscientemente, com todo o conhecimento disponível.
E agora, pelo menos, tens esse conhecimento.
#GlitterUpYourLife