Engolir Sapos Engorda? A nutricionista Conceição Calhau responde com livro novo. 

Conceição Calhau é investigadora e professora catedrátina NOVA Medical School, bem como uma das nutricionistas mais relevantes no nosso país. Acaba de lançar um novo livro, com o título Engolir Sapos Engorda – o peso das emoções na saúde e na balança, e o Glitter Dream aproveitou o momento para conversar com a autora.

1. O título “Engolir Sapos Engorda” sugere uma relação direta entre emoções e saúde física. Até que ponto o stress e as emoções reprimidas podem, de facto, influenciar o aumento de peso?

Neste livro foi mais a Professora de Bioquímica a escrever, no anterior (Deixemo-nos de tretas. A ilusão da comida saudável) foi mais a nutricionista que é professora de bioquímica. Assim, neste livro a viagem que permite ao leitor é a do metabolismo, da programação das reações químicas que acontecem. Que importa o que comemos (qualidade nutricional, hora a que comemos) mas também o que o nosso organismo vai ‘decidir’/priorizar fazer com o que chegou nas refeições. Ao longo da vida, num estado de alerta constante, de emergência, a prioridade é poupar, é fazer reserva. Como acontece agora em tempos de guerra e de insegurança constante a nível internacional, estamos em alerta, as prioridades serão outras, se calhar até somos alertados para a necessidade de fazer stock de alimentos em casa, ter dinheiro vivo, ter uma lanterna…o nosso organismo funciona de forma muito semelhante. O exército que temos em alerta, será o sistema imunitário. Mas claro, este alerta e insegurança, tem uma relação com a comida porque nos pode impulsionar para comer mais e determinados alimentos para fins de reserva e de recompensa. Por isso sim, as emoções influenciam decisões e comportamentos alimentares, mas sobretudo influenciam como a nossa máquina (organismo) funciona.

2. Num contexto em que a alimentação saudável é cada vez mais valorizada, considera que continuamos a desvalorizar o impacto do stress na saúde? 

Apesar do que escreve e concordando, dados recentes mostram que apesar de cerca de 90% dos portugueses assumirem que a alimentação é um dos principais fatores que influencia a saúde, mais de 50% diz não ‘cumprir’. Sabemos também pelos relatórios anuais da DGS que continuam os Portugueses e comer mal. Que os hábitos alimentares inadequados são um dos fatores com mais peso na perda de anos com saúde. No entanto, continuamos a ter métricas que mostram que mais de 85% da população Portuguesa não tem adesão à dieta mediterrânica.  Por isto e embora concorde que até valorizam, mas depois não são ‘praticantes’ – como na religião! Talvez sim, não associam que stresse e privação de sono condicionam também e muito as prioridades metabólicas, assim como, claro, o sedentarismo. E que muitas vezes ficam com metabolismo alterado e ainda com alterações na fome e na saciedade. Surgindo muito mais uma procura pela recompensa, prazer de comer – fome emocional. No final, atrevo-me a escrever que ainda desvalorizamos MUITO a prevenção. Desvalorizamos mas depois a queixa é de que temos direito à saúde, quando os cuidados de saúde são escassos para a procura pela elevada carga de doença. Deveríamos priorizar a saúde, a prevenção, e por isso dizer que temos o direito à saúde mas também o dever de cuidar dela.

3. No livro fala da forma como o corpo reage ao stress como se estivesse em perigo real. Pode explicar, de forma simples, o que acontece no nosso corpo quando “engolimos sapos”?

O stresse, fisiologicamente o organismo recebe a informação (alerta, ameaça, agressão) e prepara-se para a luta e a fuga. Para isso, há uma ‘chamada de açucar’ para o sangue. Ou seja, uma subida da glicose para o sangue. Com isto, duas hipóteses, ou se gasta (a expressão ‘vou dar uma volta’, subir escada com a fúria e ira de alguém que corre atrás de nós), ou se reserva porque afinal, nada aconteceu – ora como houve uma subida do açucar no sangue, o mesmo vai ser reservado como gordura até porque o alerta indica a prioridade da sobrevivência da espécie: reservar. Sapos todos temos para engolir: o segredo está em ‘o que fazer com o sapo’!

4. Há uma pressão muito grande, sobretudo nas mulheres, para “dar conta de tudo”. Acredita que isso também ajuda a explicar a relação emocional com a comida?

Sim, embora enquanto mulher, mãe, com uma carreira profissional de grande responsabilidade e sem suportes familiares de ajuda, terei sempre um viés nesta resposta mas sim acho que a emancipação da mulher não foi ainda acompanhada de mudanças sociais cooperantes. A mulher sente culpa porque tem carreira, sente culpa porque falha como mãe a um treino de um filho, sente culpa porque tem de viajar, sente que falha porque se esqueceu de algo essencial à família. A sociedade ainda faz com que a mulher sinta culpa porque tem de ser sempre perfeita. A sociedade ainda não aceitou verdadeiramente a mulher que pode ter as mesmas oportunidades. Não falo de igualdade de género de forma abstracta até porque não creio que as mulheres queiram ser homens, somos diferentes, somos mulheres. Mas não podemos ter várias carreiras, de mãe, no trabalho, na doméstica, em casa, etc., etc. Como se ouve muitas vezes, o homem trabalhou todo o dia, tem direito a chegar a casa e descansar. A mulher não trabalhou todo o dia, ela nunca pára de trabalhar.  O desgaste é grande e nem todas nós temos ferramentas para fazer o percurso de forma saudável. Sim, são as que provavelmente mais engolem sapos e que engordam. 

5. Para quem se identifica com uma relação emocional com a comida, quais são os primeiros sinais de alerta e que estratégias práticas recomenda para uma mudança sustentável?

O sinal de alerta é exatamente esse, uma má relação com a comida. Quando me perguntam: só de vez em quando posso? Ou quando dizem ‘portei-me bem e não comi’. Tipicamente em esforço, em privação. Podem não ingerir, mas o cérebro não está tratado. Há um apelo, há uma prioridade e uma programação. Só está o corpo à espera que coma. Quando isso não é tema, está tudo bem. Por isso é que ‘dietas’, restritivas, não orientadas e circunscritas no tempo, em regra de esforço como se do último quilómetro de corrida se tratasse, raramente funciona. Penso que ainda só no tratamento cirúrgico da obesidade (e nem sempre), ou nas doenças mais classicamente assumidas como de comportamento alimentar é que temos protocolos a respeito do acompanhamento da saúde mental com psiquiatras e psicólogos. A verdade é que estes sinais de fome emocional, de afetividade com a comida, seriam suficientes alertas para cuidar também da saúde mental. Ainda existe o preconceito de que quem procura ajuda é porque ou é maluco, ou está perturbado, ou tem personalidade bipolar, etc, como tantas expressões que já fui ouvindo.

Está na hora de priorizar a saúde sem tretas, sem sapos mas com (cons)ciência. Os cuidados de saúde têm que se organizar de forma diferente e isso sim é uma operação de ‘guerra’ emergente.

Espero que a leitura deste livro ajude. Espero que se deixe de falar da saúde da mulher como se de um produto com prazo ou fora do prazo, antes ou depois da menopausa. A mulher não tem pausa. Tem de cuidar de si sempre.

#GlitterUpYourLife