Há séries que se veem. E há séries que ficam para sempre. Estas são do segundo tipo.
Há algo de muito especial nas séries dos anos 2000 que as séries de hoje, com todos os seus orçamentos astronómicos e narrativas complexas, simplesmente não conseguem replicar. Talvez seja a nostalgia. Talvez seja o facto de as termos visto numa altura em que ainda não tínhamos algoritmos a dizer-nos o que devíamos gostar. Ou talvez seja simplesmente que eram mesmo muito boas.
O facto é que voltamos a elas. Sempre. Em maratonas de fim de semana, em noites de ressaca emocional, em conversas de “sabes o que me apetecia muito rever?”. São o equivalente televisivo do prato favorito da infância: aquece sempre, independentemente de quantas vezes o comemos.
Aqui estão cinco séries dos anos 2000 que nunca saíram de moda, que continuam a ganhar novos fãs todos os dias, e que, de uma forma ou de outra, definiram quem somos.
Gossip Girl (2007-2012)
XOXO. Duas letras e quatro letras que se tornaram provavelmente o encerramento de email mais icónico da história da televisão. Gossip Girl chegou em 2007 e instalou-se na cultura pop com uma energia que nenhuma série adolescente conseguiu repetir desde então.
A série acompanha o mundo dos ultra-privilegiados do Upper East Side de Nova Iorque, onde segredos, traições e looks impecáveis andam sempre de mãos dadas. Serena van der Woodsen e Blair Waldorf são, ainda hoje, dois dos personagens femininos mais fascinantes alguma vez escritos para televisão, não porque sejam perfeitas, mas precisamente porque não são. Blair é calculista, ambiciosa e vulnerável em partes iguais. Serena é luminosa e autodestrutiva com a mesma facilidade. A tensão entre as duas é o coração da série.
O que torna Gossip Girl verdadeiramente especial é o facto de ter criado um universo estético tão coerente e sedutor que continua a funcionar como referência de moda até hoje. Os looks de Blair com tiara e meias altas, os casacos de Serena, os blazers de Chuck Bass, são imagens que resistem ao tempo. E a narrativa da bloguer anónima que o sabe tudo foi, de certa forma, uma previsão do que as redes sociais viriam a ser.
O reboot de 2021 existe, mas o original é insubstituível. Não há nada que chegue aos pés dos Upper East Siders originais.
Grey’s Anatomy (2005-presente)
Sim, ainda está a passar. Não, não a deixámos de ver. E se as temporadas mais recentes já não têm a mesma magia das primeiras, a verdade é que Grey’s Anatomy criou uma ligação emocional com o seu público que poucas séries alguma vez conseguiram.
Meredith Grey chegou ao ecrã em 2005 como uma jovem residente atormentada, com uma mãe que não a via realmente e um encontro de uma noite que se revelou o seu supervisor. O Hospital Seattle Grace transformou-se rapidamente num mundo onde tudo podia acontecer, e acontecia mesmo. Mortes que partiram corações. Casamentos debaixo de chuva. Traições. Acidentes de avião. Um tiroteio que ficou na memória colectiva de toda uma geração.
O que Grey’s Anatomy fez diferente foi colocar relações de amizade femininas no centro de tudo. A relação entre Meredith e Cristina Yang, que a própria Meredith chamou de “a minha outra metade”, é um dos grandes love stories da televisão, e é uma história de amizade, não de romance. Sandra Oh e Ellen Pompeo criaram uma dinâmica que mostrou ao mundo que as histórias mais importantes não precisam de ser protagonizadas por um casal.
Pode começar nas primeiras temporadas sem medo. Vai chorar. É normal. Traz lenços.
The O.C. (2003-2007)
Newport Beach, Califórnia. Um rapaz de classe trabalhadora arrancado dos seus subúrbios problemáticos de Ohio para viver com uma família abastada numa cidade de milionários. Ryan Atwood chegou e mudou tudo, incluindo a nossa ideia do que uma série de adolescentes podia ser.
The O.C. foi muito mais do que mais uma série de jovens ricos e bonitos. Foi uma série que falou sobre identidade, pertença, classe social e família com uma honestidade que surpreendeu. Ryan era o outsider que nunca tentou fingir que pertencia. Seth Cohen, o filho geek e inseguro da família Cohne, tornou-se inesperadamente um dos personagens mais amados da televisão, porque finalmente ali estava alguém que se sentia estranho e era mostrado com ternura em vez de ridicule.
E depois havia a Summer Roberts. Começou como a miúda popular e superficial e foi-se revelando uma das personagens com maior arco de desenvolvimento da série toda. A relação entre ela e Seth Cohen é, sem qualquer sombra de dúvida, um dos romances mais satisfatórios da televisão dos anos 2000.
A trilha sonora merece menção especial. Death Cab for Cutie, Imogen Heap, The Killers. Cada episódio era também um mini concerto. Volta a ouvi-la e volta imediatamente a ter 16 anos.
Lost (2004-2010)
Houve um antes e um depois de Lost na história da televisão. Ponto.
A série que acompanhou os sobreviventes do voo 815 da Oceanic Airlines numa ilha misteriosa no Pacífico foi, durante os seus primeiros anos, a experiência televisiva mais viciante, mais discutida e mais emocionalmente intensa que existia. Cada episódio terminava com uma revelação que levantava três novas perguntas. Os fóruns de internet explodiram. As teorias multiplicavam-se. Ir trabalhar na segunda-feira depois de um episódio novo era entrar directo num debate que poderia durar dias.
O que Lost fez de forma revolucionária foi usar os flashbacks não como recurso narrativo ocasional, mas como estrutura central da série. Cada personagem tinha uma história antes da ilha que contextualizava quem eram no presente. Perceber de onde vinham era perceber porque agiam como agiam. Era televisão que exigia atenção e recompensava com emoção.
O final continua a dividir opiniões, e provavelmente sempre irá dividir. Mas o percurso até lá foi uma das viagens mais extraordinárias que a televisão já proporcionou. Jack, Kate, Hurley, Sawyer, Locke, Sayid, Sun e Jin são personagens que não saem da memória. “We have to go back” continua a ser uma das frases mais icónicas da história das séries.
The Office (2005-2013)
Existe um mundo paralelo em que The Office nunca saiu dos anos 2000, nunca foi para o streaming e nunca conquistou as gerações seguintes. Por sorte, não vivemos nesse mundo.
The Office é, tecnicamente, uma série de comédia sobre uma empresa de papel em Scranton, Pensilvânia. Na prática, é uma das análises mais precisas e ternas da condição humana alguma vez filmadas. O formato de mockumentary, que finge documentar o dia a dia de um escritório completamente comum, é o veículo perfeito para observar pessoas reais a tentarem navegar a vida com o que têm.
Michael Scott, interpretado por um Steve Carell absolutamente genial, é ao mesmo tempo o personagem mais constrangedor e mais comovente da série. É mau chefe, egocêntrico e socialmente catastrófico. É também, no fundo, apenas uma pessoa que quer desesperadamente ser amada e não sabe bem como pedir isso. A relação entre Jim e Pam é um romance que ainda hoje aparece em listas de “casais favoritos de sempre”, e com razão. É construída com paciência, com olhares, com momentos pequenos que se acumulam até explodir.
The Office é a série que as pessoas recomendam quando alguém diz que precisa de algo reconfortante. É a série que se mete a tocar em segundo plano quando se está a trabalhar ou a dobrar roupa. É a série que toda a gente tem sempre a meio de uma revisão.
É, em resumo, televisão que se parece com estar em casa.
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