Vamos normalizar a dificuldade de engravidar?

Crescemos com uma ideia muito simples, quase automática: quando quisermos, acontece. Há uma espécie de narrativa silenciosa que nos acompanha durante anos, onde a fertilidade é garantida, o corpo responde e o tempo está do nosso lado.

E depois chega o momento em que não acontece. E ninguém nos preparou para isso. Não nos falaram da espera. Dos meses que passam com uma esperança discreta, quase cautelosa. Da forma como o tempo começa a ser medido em ciclos, em testes, em datas. Nem da forma como um assunto tão íntimo se torna, aos poucos, numa presença constante.

Porque a dificuldade em engravidar continua a ser um tema meio invisível. Fala-se pouco, e quando se fala, é muitas vezes em tom baixo, como se houvesse algo de errado em admitir que não está a acontecer. E não devia ser assim.

Há uma pressão implícita que não ajuda. A ideia de que o corpo “deve funcionar”, de que há uma sequência natural das coisas que, se não se cumpre, levanta perguntas difíceis. Perguntas que raramente ficam só do lado de fora. Acabam por entrar, por instalar-se, por ganhar espaço. “Será que há algum problema comigo?” E, no meio disto, há o mundo a continuar.

Gravidezes que aparecem à nossa volta, anúncios que surgem sem aviso, conversas que parecem inocentes mas que chegam sempre ao mesmo lugar. Não é inveja. É uma mistura mais complexa, difícil de explicar. Uma alegria pelos outros que convive com uma tristeza muito própria.

O mais cansativo, talvez, seja a invisibilidade.

Porque, ao contrário de outras experiências, não há sinais exteriores. Não há forma de mostrar que algo está a ser vivido intensamente. E isso cria uma solidão particular, onde parece que toda a gente está a seguir em frente enquanto nós ficamos num intervalo.

Normalizar a dificuldade em engravidar não é tornar o processo mais leve. É torná-lo mais visível. É permitir que se fale sem constrangimento, sem vergonha, sem a necessidade de justificar. É reconhecer que há muitas histórias diferentes e que nem todas seguem o mesmo ritmo. E, sobretudo, é retirar a ideia de falha. Porque não é uma falha. É uma experiência. Complexa, emocional, muitas vezes dolorosa, mas profundamente humana. E talvez seja precisamente por isso que precisa de ser dita em voz alta.

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