“O digital pode pôr mais pessoas a ler” Entrevista à autora Maria Cláudia Rodrigues

Maria Cláudia Rodrigues é jornalista, produtora de televisão e escritora. Lançou recentemente o seu segundo livro, A Conta que Deus Fez, uma história forte que já conquistou muitos leitores, incluindo Júlia Pinheiro e Manuel Luís Goucha. A autora conversou com o Glitter Dream sobre se o Instagram está, realmente, a influenciar-nos a ler mais.

A Conta que Deus Fez, lançado em março 2026, de Maria Cláudia Rodrigues

O Instagram tem sido apontado como um dos principais responsáveis por uma nova vaga de interesse pela leitura, sobretudo entre públicos mais jovens. Enquanto autora, como olhas para este fenómeno e que impacto sentes que está a ter no ecossistema do livro?

– É com grande satisfação que verifico a existência de um segmento, em verdadeiro crescimento, de influenciadores digitais no mundo da leitura, alguns deles, já com um número de seguidores muito significativo. Tenho sentido muito mais o impacto destes influenciadores agora, com a publicação de A Conta que Deus Fez, do que quando lancei o primeiro livro, A Espera de Fernanda, há quase seis anos. É surpreendente a quantidade de pessoas que se me tem dirigido porque ouviram falar do livro através do Instagram. Numa altura em que está, plenamente, instalada a ideologia da facilidade, traduzida numa exigência de conteúdos curtos e mais iconográficos, este fenómeno é, sem dúvida, apaziguador. No meu entender, os livros, a literatura convencional, continua a ter o seu espaço, inigualável, no ganho de conhecimento. 

Como referes, hoje em dia, muitos leitores descobrem livros através de recomendações visuais, rápidas e emocionais. Acreditas que esta forma de contacto muda como se escolhe, e até como se lê, um livro?

– Terá, certamente, uma influência na escolha, mas a forma como se lê dependerá sempre do leitor, das suas idiossincrasias. Há dez anos, os livros eram promovidos nos jornais, em revistas, em programas de televisão, e as livrarias eram a sua vitrina principal. Hoje, as redes sociais são a sua montra por excelência. É tudo muito rápido. Há muitos livros. Passa tudo muito depressa. É preciso reflectir também no lado B desta voracidade de informação, a todos os níveis, não só no impacto que produz no mercado literário. Ler é refletir. E a reflexão exige tempo. Por outro lado, o impacto visual, seja num livro, ou noutro bem de consumo qualquer, pode ser determinante, mas não é o garante de que o produto seja satisfatório. 

O teu segundo livro, A Conta que Deus Fez, entra agora neste contexto em que a leitura também se vive online. De que forma sentes que esta nova dinâmica pode influenciar a receção da obra?

– Tudo aquilo que beneficia a obtenção de conhecimento, é positivo. No meu caso, com A Conta que Deus Fez, sinto que as redes sociais estão a ajudar-me muito na divulgação. Ninguém pode viver à margem do Instagram, isso é certo. 

O Instagram trouxe visibilidade a livros que, noutros tempos, poderiam passar mais despercebidos. Consideras que esta democratização beneficia a diversidade literária ou tende a concentrar atenção nos mesmos títulos e autores?

– Não sei se se trata de democratização, mas as redes sociais são, sem sombra de dúvida, um forte escaparate para a promoção de livros. As redes sociais contribuem para que muitos livros e novos autores saiam da sombra. Mas o meu receio é que as redes sociais também determinem tendências muito apertadas. É precisa muita reflexão neste campo. 

Enquanto autora, como vês o equilíbrio entre escrever num tempo longo, de reflexão, e promover uma obra num espaço marcado pela velocidade e pela exposição constante?

– Vejo-o com naturalidade, mas como referi, com alguma ponderação. Escrever é, realmente, um acto solitário, que requer tempo e maturação. O livro é publicado, lançado, posto à venda e, em duas semanas, sai de cena para dar lugar a outro, e assim sucessivamente. Esta celeridade não deixa muita margem para a ‘digestão’. Esta tendência consumista que vivemos está a alargar-se aos bens de cariz cultural e os bens culturais precisam de tempo para serem digeridos. Se não, não aprendemos nada com eles. 

Acreditas que esta “porta de entrada” digital para a leitura pode transformar leitores ocasionais em leitores consistentes? E que papel podem os autores ter nesse processo?

– Sou optimista! Acredito que sim! O digital pode, realmente, pôr mais pessoas a ler. Conheço vários casos de pessoas que começaram a ler livros porque viram este ou aquele no Instagram e sentiram-se atraídos. Os autores devem adaptar-se a esta realidade; não olhar para as novas formas de comunicação – que são as redes sociais – nem com desprezo, nem com indiferença. As redes sociais são meios de comunicação de massas. 

Para terminar: quais as contas portuguesas, ligadas ao universo da escrita e da leitura, que gostas de seguir?

– Sigo vários autores, portugueses e estrangeiros, nomeadamente o Leonardo Padura, a Rosa Montero, o Zimler, o José Luís Peixoto, a Hélia Correia, muitos mesmo. E sigo também várias contas relacionadas com o universo da leitura. Faço parte de alguns clubes e compro muitos livros online. Ainda assim, continuo a adorar ir a uma livraria. Adoro sentir o peso e o cheiro de um livro. 

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