“Há muitas mulheres profundamente interessadas no vinho”. Entrevista a Conceição Gato 

O Glitter Dream quis desfazer alguns mitos relacionados com as mulheres e o vinho. Conversámos com Conceição Gato, organizadora do evento Só Castas, que nos diz que há cada vez maior presença feminina no setor.

Durante muito tempo, o vinho foi percecionado como um universo predominantemente masculino. Na sua experiência, enquanto produtora do Só Castas e organizadora de outros eventos ligados ao setor do vinho, essa ideia ainda faz sentido ou está a tornar-se um mito?

Durante muitos anos, o setor do vinho foi de facto muito masculino, sobretudo nas funções mais visíveis: produtores, enólogos, críticos ou decisores, mas essa realidade tem vindo a mudar de forma clara. Hoje, encontramos mulheres em todas as áreas e também no consumo, com um nível de conhecimento cada vez mais elevado. Enquanto organizadora do Só Castas, isso é particularmente evidente. Temos cada vez mais mulheres presentes. Essa diversidade é muito positiva, porque traz diferentes perspetivas e contribui para uma conversa mais rica sobre o vinho. Ainda há caminho a fazer, sobretudo em cargos de liderança e maior visibilidade, mas a evolução é clara e consistente.


Há ainda estereótipos associados às preferências das mulheres no vinho, como a ideia de que optam por vinhos mais leves ou doces. Esses padrões existem ou são uma construção cultural?

Penso que esses estereótipos estão cada vez mais ultrapassados. A experiência mostra-nos que as preferências não dependem do género, mas do contexto, da experiência e da curiosidade de cada pessoa. Há mulheres que preferem vinhos mais estruturados e homens que optam por vinhos mais leves, e isso é perfeitamente natural. Aliás, num evento como o Só Castas, onde há contacto com diferentes castas e estilos, vemos precisamente essa diversidade de escolhas. As pessoas querem experimentar, descobrir, comparar. O vinho deixou de ser uma questão de categorias rígidas e passou a ser uma experiência mais aberta e mais pessoal.

O Só Castas tem uma forte componente de conhecimento e educação. Acredita que este tipo de evento contribui para tornar o vinho mais acessível e inclusivo, nomeadamente para um público feminino mais diverso?

Sem dúvida. Um dos objetivos do Só Castas é precisamente criar um espaço onde o vinho seja abordado de forma acessível, sem perder o rigor. A conferência académica, as provas comentadas e as conversas com produtores permitem aproximar o público do vinho de forma mais informada e mais confiante. Quando o conhecimento é partilhado de forma clara, o vinho deixa de ser um território fechado. Isso é importante para todos os públicos, incluindo para muitas mulheres que se aproximam do vinho com curiosidade e interesse, mas que, durante muito tempo, sentiram que este era um universo mais técnico ou reservado a especialistas.

Do lado da produção e da investigação, sente que há, hoje, uma maior presença feminina no setor do vinho em Portugal? Que mudanças tem observado nos últimos anos?

Sim, essa presença é cada vez mais visível. Encontramos mais mulheres em áreas como a enologia, a viticultura, a investigação e a comunicação do vinho. Também em provas, conferências e eventos, há uma participação feminina mais significativa, tanto como oradoras como participantes. No Só Castas, isso também se reflete na composição do programa, que inclui investigadoras e especialistas de diferentes áreas. Esta diversidade é importante porque o setor do vinho beneficia de múltiplas abordagens científicas, culturais, sensoriais, e a presença feminina tem contribuído para essa pluralidade.


Se tivesse de desmistificar uma ideia comum sobre mulheres e vinho, aquela que mais ouve ou que mais a incomoda, qual escolheria e porquê?

Talvez a ideia de que as mulheres têm uma relação mais superficial com o vinho. Essa é uma perceção que já não corresponde à realidade. Hoje há muitas mulheres profundamente interessadas no vinho, com conhecimento técnico, sensorial e cultural, e com um papel ativo no setor. O vinho é, acima de tudo, uma experiência cultural e sensorial, e isso não depende do género.

Para terminar, que mulheres no setor vínico a inspiram, em Portugal? 

A primeira de todas, D. Antónia Adelaide Ferreira, pela atitude e estoicismo (estamos a falar do século XIX). Luisa Amorim, pela ligação do vinho ao enoturismo, com um posicionamento de alta qualidade, e Martta Simões, pelo trabalho técnico que desenvolve entre casta e terroir.

#GlitterUpYourLife