Quem é que eu seria sem o meu antidepressivo?

Depois de anos a tomar medicação psiquiátrica, muitas pessoas começam a questionar-se: quem seria eu sem estes medicamentos? Alguns sentem-se mais estáveis e funcionais mas ficam com a sensação de que talvez se estejam a medicar sem necessidade. Outros receiam os efeitos secundários ou não sabem como seria interromper o tratamento de forma segura. É aqui que uma conversa com a sua psiquiatra e uma análise mais profunda das razões pelas quais o possa querer experimentar fazem todo o sentido.

A medicação e a identidade
Sabemos que, para muitas pessoas, os antidepressivos funcionam melhor do que o placebo. Mas os resultados variam muito de pessoa para pessoa.
O antigo conceito de que o que se passa no nosso cérebro é só um “desequilíbrio químico” já não é tão atual. Hoje sabe-se que os antidepressivos podem alterar a neuroplasticidade, ajudando o cérebro a processar melhor emoções, stress e experiências vividas, criando novas “auto-estradas” de processamento. Ainda assim, nem sempre é fácil determinar o quanto da melhoria vem do medicamento, da psicoterapia ou do estilo de vida.

Os antidepressivos podem ajudar a atuar sobre os nossos pensamentos, emoções e até em comportamentos e isso pode mudar a forma como nos sentimos em relação a nós mesmos. Mas não existe um “eu verdadeiro” fixo. A nossa identidade é construída pela soma das nossas experiências, relações, hábitos e escolhas.

A pergunta importante não é “quem eu seria sem medicação?” mas que tipo de pessoa quero ser? E como é que esta medicação me ajuda a chegar lá?

E se eu quiser deixar de tomar?
Alguns pacientes relatam sentimentos ambivalentes: sentem-se mais calmos, mas “menos eles próprios”, querem parar a medicação, mas receiam abstinência ou recaída ou sentem que a medicação lhes dá controlo emocional, mas ainda têm dúvidas sobre a sua autonomia. Estudos mostram que, embora mais de metade das pessoas que os tomam tenham experiências positivas, cerca de 30% relatam vivências mistas. Esta ambivalência é natural e faz parte da vida.

Se pensa em interromper a medicação, nunca o faça de forma abrupta. Um plano gradual com acompanhamento de um psiquiatra é essencial, reduzindo riscos e aumentando as hipóteses de sucesso.

Tomar ou deixar de tomar antidepressivos é, em última análise, uma decisão de cada um. Não há respostas absolutas, apenas escolhas que devem ser conscientes e alinhadas com os nossos valores e com a pessoa que desejamos ser e que devem ter em conta o historial psiquiátrico e um aconselhamento clínico cuidado e com empatia.

O mais importante

Para algumas pessoas, tomar medicação pode ser uma das ferramentas que as ajuda a aproximar-se da versão de si mesmas que querem ser, por exemplo mais calmas, presentes e empáticas. Nesses casos, a decisão de continuar o tratamento não surge como uma perda de autenticidade, mas como uma escolha alinhada com aquilo que valorizam. Ao mesmo tempo, é importante sentir que existe espaço para refletir e reavaliar essa decisão ao longo do tempo, para continuar, ajustar ou eventualmente reduzir a medicação com acompanhamento psiquiátrico. Mesmo quando existe alguma ambivalência, saber que essa escolha permanece consciente e ponderada pode trazer uma sensação de maior tranquilidade.

A medicação é uma ferramenta, um meio para um fim. Ajuda-nos a construir quem queremos ser, mas não define tudo aquilo que podemos vir a ser. Não se culpe ou se sinta inferior por ter começado ou continuado um tratamento que, em muitos casos, salva vidas devolvendo-lhes uma qualidade que tinha sido perdida. Reflita sobre quem quer ser e procure apoio em si e à sua volta para que as suas escolhas estejam alinhadas com a sua vida, os seus valores e o seu bem-estar.

Artigo por Dra. Inês Costa Maia
Psiquiatra e Psicoterapeuta

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