Abril tem um sentido de humor muito próprio. Começa logo com o Dia das Mentiras, como quem avisa: não leves tudo demasiado a sério. É um mês que entra de fininho, meio indeciso, entre dias de sol quase verão e tardes que ainda sabem a inverno. Não se compromete totalmente com nada. E talvez seja isso que o torna tão interessante.
Há qualquer coisa de irónico em um mês que simboliza recomeços, flores e novas fases começar precisamente com uma mentira. Como se a vida dissesse: calma, não acredites já em tudo o que parece bonito. Abril não promete estabilidade. Promete mudança. E isso, como sabemos, raramente vem sem alguma confusão pelo meio.
É também o mês em que voltamos a acreditar que vamos organizar a vida. Que vamos começar novos hábitos, beber mais água, acordar mais cedo, ser mais consistentes. Abril tem esse efeito quase ilusório de reset. Como se, de repente, tudo fosse possível outra vez. E nós, ingénuos e esperançosos, vamos atrás.
Depois há o tempo. O clássico “em abril, águas mil” continua a cumprir-se com uma consistência impressionante. Podemos sair de casa com sol, óculos escuros e uma sensação de controlo absoluto e, duas horas depois, estar a correr debaixo de chuva, sem guarda-chuva, a questionar todas as nossas decisões. Abril ensina humildade meteorológica.
Mas abril não é só instável. Também é profundamente simbólico. É o mês em que celebramos a liberdade com o 25 de Abril, uma data que continua a lembrar-nos que aquilo que hoje parece garantido já foi, um dia, conquistado com coragem. No meio de um mês leve e quase distraído, há este momento que nos puxa para algo maior, mais sério, mais essencial.
É também o mês da Páscoa. Outro tipo de recomeço. Mais íntimo, mais familiar, mais ligado à ideia de pausa e renovação. Mesas cheias, encontros, doces que só aparecem nesta altura do ano e aquele ritmo mais lento que nos convida a parar, nem que seja por um fim de semana.
No meio de tudo isto, abril vai acontecendo. As flores começam a aparecer, os dias ficam mais longos, há uma leveza no ar que não existia antes. As esplanadas enchem-se, as pessoas parecem ligeiramente mais bem-dispostas e há uma sensação geral de que estamos a sair de alguma coisa, mesmo que não saibamos bem de quê.
Abril é, no fundo, um mês de transição. Nem inverno, nem verão. Nem totalmente organizado, nem completamente caótico. Um meio-termo que nos obriga a adaptar, a ajustar expectativas e a aceitar que nem tudo precisa de fazer sentido imediato.
E talvez seja essa a grande lição de abril. Nem tudo o que começa com uma mentira acaba mal. Às vezes, é só o início de uma história que ainda não percebemos totalmente.
Por isso, se abril chegar com planos incertos, dias trocados e promessas meio vagas, está tudo certo. É só abril a ser abril.
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