O prometido é devido e está agora revelado o meu segundo nomeado…Nuremberga.
Agora a questão que se coloca é: por onde começar a falar? Pelas várias camadas que compõe cada personagem? Pela complexidade da relação entre o Reichsmarschall e o psiquiatra que o acompanhava durante o julgamento de Nuremberga? Pelo aviso claro que Kelley deixa à sociedade sobre estes perfis que chegam a altos cargos? Pela forma como o ego acaba por ser a sentença de Hermann Goring?
Este é aquele tipo de filme que deixa o espectador agarrado à cadeira da sala de cinema do início ao fim.
O filme acompanha o psiquiatra Douglas Kelley, responsável por avaliar e acompanhar vinte e dois nazis durante os julgamentos de Nuremberga, com especial foco para o Reichsmarschall, Hermann Goring, líder do partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães. A premissa podia facilmente cair no território do drama histórico tradicional, mas o que mais marca aqui não são os factos, é a ideia desconfortável que vai crescendo ao longo da narrativa: a de que estes homens não são monstros no sentido caricatural. Eram humanos. E é precisamente isso que assusta.
Kelley, interpretado por Rami Malek, inicia o acompanhamento dos nazis detidos com a sua própria agenda pessoal. A sua missão final é a de conseguir publicar um livro que explique a natureza do mal. Para isso, Kelley tenta compreender e catalogar o que observa. Acaba por cair numa relação complexa e que vai muito além do profissional com o líder nazi, braço direito do Hitler. Há uma tensão constante entre fascínio e repulsa. Um vislumbre quase de amizade e até de admiração por Hermann Goring.
Quanto mais observa, mais o psiquiatra se debate e ultrapassa todas as barreiras de uma relação médico-paciente. Torna-se evidente que os traços que encontra – narcisismo, necessidade de poder, manipulação, capacidade de distorcer a realidade – não pertencem apenas a ditadores derrotados numa guerra, mas em pessoas comuns. Pessoas que sobem a posições de influência sem levantar suspeitas.
O filme ganha força quando deixa de ser apenas sobre o passado e passa a ser sobre o presente. A mensagem implícita é perturbadora: a história não se repete com uniformes assustadores e discursos óbvios. Repete-se com sorrisos confiantes, discursos sedutores e com a ideia de um paternalismo maníaco personalizado por um homem que se crê superior, quase um Deus, capaz de ditar o que é o bem e o mal, distinguir o certo do errado e salvar pessoas com os seus ideais. É, assim, que facilmente, quem está vulnerável, inseguro ou revoltado, cai cegamente em ideais extremistas. A manipulação raramente parece perigosa no início, muitas vezes até parece reconfortante.
Existe também uma dimensão trágica na própria figura de Kelley. Um homem que acreditava poder alertar o mundo para os sinais de perigo e que acabou por endoidecer com a sua própria lucidez. Não foi ouvido. Essa camada acrescenta profundidade emocional ao filme e impede que ele seja apenas uma reconstrução histórica.
A capacidade que Nuremberga tem, ainda, de evocar a nossa empatia em alguns momentos é outro elemento surpreendente. Precisamente aquele que nos distingue das personagens que observamos. É mais um elemento que nos prende e desperta em nós um debate interno.
Nuremberga é um filme necessário. Um filme para todos verem. Mais do que nunca, nos dias que correm.
Artigo por Catarina Ogando
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