Há uma coisa que aprendi sobre mim muito cedo e que nunca mudou, por mais que já tenha tentado: eu chego sempre primeiro. A toda a parte. A jantares, a festas, consultas, ou cafés improvisados de sexta-feira à tarde. Chego e o lugar ainda está meio vazio, o empregado ainda está a arrumar cadeiras, o médico noutra consulta e eu sento-me com aquela expressão de quem chegou cedo a um concerto e agora não sabe bem o que fazer com as mãos.
Já tentei remediar isto. Já saí de casa mais tarde. Já dei voltas ao quarteirão. Já fiz scroll durante dez minutos no carro antes de entrar. E mesmo assim chego antes de toda a gente. É uma condição. Não tem cura.
O problema não é chegar cedo. O problema é o que acontece a seguir.
Porque chegar cedo a um sítio onde ainda não está ninguém é uma experiência muito específica de solidão social. Não é a solidão de estar sozinha em casa numa sexta à noite, essa até tem um certo charme. É a solidão pública, exposta, a solidão de quem está sentada numa mesa para seis com um copo de água e o telemóvel virado para baixo porque já fez scroll em tudo o que havia para fazer.
E entretanto, os outros? Os outros estão bem. Os outros estão em casa, a acabar o cabelo. A estacionar o carro “aqui perto”. A “já estar mesmo a sair”. Estão a viver as suas vidas com uma serenidade que eu nunca vou conseguir ter em relação à hora marcada. Para eles, as 20h00 são uma sugestão. Uma orientação. Um ponto de partida para começar a pensar em começar a preparar.
Para mim, as 20h00 são as 20h00. São um compromisso. Uma promessa feita ao universo.
Já percebi que o tempo que passo à espera diz muito sobre mim e muito sobre como funciono no mundo. Eu sou uma pessoa que acha que o tempo dos outros é sagrado. Que fazer alguém esperar é uma forma subtil de lhes dizer que o meu tempo vale mais do que o deles. Que pontualidade é um ato de respeito, não um sinal de que não tens vida. Mas vivo num mundo onde esta convicção é, na melhor das hipóteses, excêntrica, e na pior, irritante.
“Tu és muito rígida com essas coisas”, já ouvi. Como se ter respeito por uma hora combinada fosse um traço de personalidade difícil. Como se eu fosse a esquisita por ter chegado quando disse que ia chegar.
O pior não é sequer a espera. O pior é quando a pessoa finalmente chega, atrasada vinte minutos, meia hora, quarenta e cinco minutos nalguns casos históricos e entra com uma energia de quem está a fazer um favor. Com um sorriso, com um abraço, com um “ai desculpa, o trânsito estava um horror” dito sem o peso que essa frase devia ter. E eu sorrio, digo que não faz mal, e guardamos juntas o assunto algures onde ele não incomoda ninguém.
Porque claro que digo que não faz mal. Porque a alternativa é ser a pessoa chata que faz drama por meia hora. E eu já sei que nessa história sou sempre a antagonista, nunca a vítima.
Há uma injustiça silenciosa em ser pontual num mundo de atrasados crónicos. Ninguém te elogia por chegares a horas, isso é o mínimo esperado. Mas se te atrasas, toda a gente encontra uma razão para compreender. O trânsito, a vida, o caos do dia-a-dia. A impontualidade tem sempre uma narrativa. A pontualidade não tem nenhuma, é apenas o que se espera de pessoas sérias e um bocadinho sem graça.
Então aqui estou eu, séria e um bocadinho sem graça, a chegar sempre primeiro.
A olhar para a porta.
A beber água.
A reler as mesmas três conversas do WhatsApp.
A calcular mentalmente se “já saí” significa cinco minutos ou vinte.
Já sei que não vou mudar. Já aceitei que esta é a minha cruz, leve, mas presente. O que ainda não aceitei completamente é a paz com a espera. Ainda não cheguei a esse nível de iluminação onde me sento numa mesa vazia e penso que bom, tempo para mim. Ainda sinto aquele aperto pequeno de quem está no lugar errado à hora certa.
Mas enquanto espero, pelo menos, tenho tempo para pensar nestas coisas.
E para chegar a conclusões. A horas.
#GlitterUpYourLife