Fake stories: a arte de fingir que não estás a fingir

Há uma tendência nova nas redes sociais que toda a gente finge não seguir mas que toda a gente segue. Chama-se “conteúdo orgânico”, “autenticidade”, “raw aesthetic”, e consiste basicamente em publicar fotografias tiradas aparentemente de qualquer maneira, com luz natural imperfeita, um enquadramento ligeiramente torto e a sensação de que foi feito sem pensar. A pessoa estava ali, viveu o momento, e quase por acidente o telemóvel estava na mão. Que espontâneo. Que real. Que completamente ensaiado do primeiro ao último pixel.

Porque a verdade, que toda a gente sabe mas ninguém diz em voz alta, é que o story “orgânico” de hoje demorou quarenta e cinco minutos a produzir. Houve pelo menos três tentativas de luz. Houve uma deslocação estratégica para junto da janela. Houve um reposicionamento do copo de café para que ficasse no enquadramento mas de forma casual, não demasiado central, não demasiado a um lado, só ali, como se tivesse sido esquecido ali por alguém que tem uma vida muito mais interessante do que tu. Houve um filtro aplicado e depois removido porque ficava demasiado óbvio, e depois aplicado de novo mas em cinquenta por cento, porque a ideia é parecer que não há filtro mas com melhor luz.

A anatomia do story orgânico perfeito

O story orgânico tem regras muito precisas que nunca foram escritas em lado nenhum mas que toda a gente conhece intuitivamente. A fotografia não pode estar demasiado bem enquadrada, porque isso trai a intenção. Mas também não pode estar demasiado mal enquadrada, porque aí parece que estás a tentar parecer despreocupada, o que é ainda pior. O ponto ideal é um enquadramento que diz “eu estava distraída mas tenho bom olho”, uma ficção que requer mais talento técnico do que qualquer fotografia propositadamente bem composta.

A legenda, se existir, tem de parecer escrita em trinta segundos mas ter a profundidade de coisa que se pensa há três dias. O ideal é uma frase incompleta, uma observação sobre nada em particular, talvez uma vírgula onde não devia estar, que dá a sensação de pensamento interrompido. Nunca hashtags, claro. As hashtags são para quem ainda não percebeu que a nova forma de ser aspiracional é fingir que não queres ser aspiracional.

E depois há a música. A música do story orgânico é sempre qualquer coisa que descobriste antes de toda a gente, ou pelo menos que toda a gente ainda não usa demasiado, qualquer coisa indie com uma guitarra acústica ou uma voz levemente rouca que comunica “eu tenho bom gosto mas não me esforço para o ter.” Escolher essa música demora em média dez minutos.

O café que arrefeceu por uma boa causa

O elemento mais sacrificado no universo dos fake stories é, sem dúvida, o café. Há uma quantidade industrial de cafés que arrefecem todos os dias em nome da estética orgânica. O café tem de estar na posição certa, com a crema ainda intacta mas não demasiado perfeita, com a luz a bater de lado mas não a criar sombras demasiado dramáticas, e com algum objeto de fundo que contextualize o momento sem o explicar demasiado. Um livro com o título visível é demasiado óbvio. Um bloco de notas entreaberto é melhor. Uma planta em segundo plano é quase obrigatória.

E depois de tudo isto estar certo, tira-se a fotografia. E mais três. E comparam-se as quatro. E escolhe-se a segunda, não a primeira, porque a primeira parece demasiado intencional mas a segunda tem aquele grão de imperfeição que é exatamente o que se procurava. O café está frio. Não importa. O café nunca foi para beber. O café era adereço.

A grande ironia de tudo isto

O que torna os fake stories genuinamente fascinantes, enquanto fenómeno cultural, é que são uma resposta direta ao excesso de perfeição das redes sociais, mas executados com exatamente o mesmo nível de esforço que criticam. Cansámo-nos das fotografias demasiado produzidas, dos feeds demasiado curados, da vida demasiado filtrada, e a solução que encontrámos foi produzir, curar e filtrar tudo de novo mas de forma a parecer que não o fazemos. É uma volta completa que chega ao mesmo sítio por um caminho diferente.

E o mais delicioso é que toda a gente sabe. As pessoas que fazem os stories orgânicos sabem que não são orgânicos. As pessoas que os vêem sabem que não são orgânicos. E no entanto o contrato social das redes sociais exige que todos fingimos que são, que comentamos “adoro esta vibe” sem mencionar que a vibe demorou uma hora a construir, e que continuamos a publicar os nossos próprios cafés frios com a mesma energia de quem acabou de olhar para cima por acaso e achou graça.

No fundo, talvez seja isto a autenticidade em 2025: não a ausência de esforço, mas a cumplicidade partilhada na ficção. Toda a gente sabe que é uma peça de teatro. E toda a gente continua a aplaudir. Porque o café estava frio mas a fotografia ficou mesmo muito bem, e isso, convenhamos, também conta para alguma coisa.