Há uma teoria, amplamente aceite por quem já passou dos vinte e tal anos, de que o mês que antecede o aniversário é uma zona de turbulência cósmica sem explicação científica mas com provas empíricas abundantes. Chama-se inferno astral, e não é preciso acreditar em astrologia para o sentir. Basta ter um aniversário marcado no calendário e esperar. Ele vem. Ele vem sempre.
O inferno astral não avisa. Não chega com fanfarra nem com uma notificação de calendário. Chega silenciosamente, disfarçado de pequenas coisas que começam a correr mal de forma sistemática e inexplicável, como se o universo tivesse decidido fazer uma auditoria geral à tua vida exatamente antes de completares mais um ano. De repente, o computador avaria. O carro precisa de uma revisão que não estava planeada. Há uma discussão com um amigo sobre algo completamente idiota que escala para proporções desnecessárias. A roupa não assenta bem. O sono desaparece. Aparece uma borbulha no sítio mais inconveniente do rosto. E tu ficas ali, a olhar para tudo isto, com a sensação de que o universo tem algo pessoal contra ti.
A contagem decrescente que ninguém pediu
O problema do inferno astral é que ele não é apenas logístico. É também existencial, e essa é a parte verdadeiramente cruel. Porque enquanto as coisas práticas desmoronam à tua volta, a cabeça aproveita a oportunidade para fazer aquilo que faz melhor: o balanço. E o balanço pré-aniversário não é aquele balanço sereno e grato que as pessoas descrevem nos posts de Instagram com foto ao pôr do sol. É o balanço das três da manhã, feito com o rigor crítico de uma auditoria fiscal e a misericórdia de um júri de concurso de talentos.
Onde é que eu queria estar com esta idade? Estou? Não estou? Devia estar? O que é que fiz este ano que valha a pena? Aquele projeto que adiou ainda vai acontecer ou já é hora de ser honesto? Aquela pessoa com quem devia ter falado, devia mesmo falar agora? E as amizades que foram ficando para segundo plano, e os planos que nunca saíram do papel, e a versão de mim próprio que achei que ia ser e que continua algures numa lista de intenções de ano novo de há três anos? Estes pensamentos chegam todos ao mesmo tempo, às três da manhã, com a clareza cristalina e a utilidade prática de absolutamente nada.
Os sintomas clínicos do inferno astral
Com o tempo, começa a reconhecer-se o padrão. Há sinais. O primeiro é a irritabilidade inexplicável, aquela sensação de que tudo e todos estão ligeiramente errados, que o trânsito é uma afronta pessoal e que o som das notificações do telemóvel é insuportável. O segundo é a nostalgia seletiva e traiçoeira, que faz com que de repente te lembres com uma nitidez desnecessária de momentos de há dez anos que não pensavas há anos, e que todos eles pareçam melhores do que qualquer coisa que esteja a acontecer agora.
O terceiro sintoma, e talvez o mais insidioso, é a comparação. O inferno astral transforma qualquer scroll nas redes sociais numa sessão de tortura comparativa. Toda a gente parece estar exatamente onde queria estar. Toda a gente tem projectos, viagens, conquistas, crianças lindas, casas bem decoradas e uma vida que aparentemente se passa em luz natural. E tu tens uma borbulha e uma discussão por resolver sobre quem deixou o leite a acabar.
Mas depois passa
E então chega o dia. O bolo aparece, as mensagens chegam, alguém faz uma surpresa que não esperavas, e o universo, como se tivesse cumprido o seu propósito pedagógico, desliga a máquina de caos e volta ao modo normal. A borbulha desaparece. A discussão resolve-se. O computador lá arranca. E tu olhas para trás, para aqueles trinta dias de turbulência, e percebes que sobreviveste mais uma vez.
Há quem diga que o inferno astral existe para que o aniversário, quando chega, pareça um alívio genuíno. Uma forma do universo garantir que celebrates mesmo, que não deixes o dia passar como mais um dia normal, porque qualquer coisa que venha depois daquele mês merece ser comemorada com entusiasmo. E talvez seja mesmo assim. Talvez o caos antes do bolo seja o preço que se paga pela festa, uma taxa cósmica de entrada no novo ano de vida.
O que é certo é que todos os anos juras que desta vez vai ser diferente, que não vais deixar o inferno astral entrar, que vais chegar ao teu aniversário sereno e grato e com sono regulado. E todos os anos, por volta do dia trinta antes do bolo, o universo bate à porta com uma avaria, uma borbulha e três perguntas existenciais às três da manhã, só para lembrar que há tradições que não se quebram. E que às vezes o caos é apenas a forma mais dramática de dizer que estás vivo, que tens uma vida que vale a pena auditar, e que daqui a trinta dias há bolo.
E isso, convenhamos, não é assim tão mau.